Sábado, 22 de Janeiro de 2022
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Pedaços de osso e cerâmicas são encontrados na praça Rodrigues dos Santos

No local do futuro Camelódromo já foram encontrados exemplares da Cerâmica Tapajoara no século XX. Foi lá também que, em 1661, o padre João Felipe Bettendorff abriu um “Largo” para catequizar os indígenas do povo Tapajó

05/01/2022 às 20h31 Atualizada em 05/01/2022 às 20h34
Por: Tapajós de Fato
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Pedaços de osso e cerâmicas são encontrados na praça Rodrigues dos Santos

Ontem o Tapajós de Fato  noticiou a derrubada  de árvores da praça Rodrigues dos Santos, no local vai ser construído um camelódromo com 100 boxes para  os trabalhadores ambulantes da praça da Matriz. Hoje, no segundo dia de trabalhos,  foram encontradas pedaços de osso e  de cerâmica nas escavações para retirada das  raízes das árvores cortadas. 

A praça Rodrigues dos Santos é considerada o berço da história  de Santarém. Para Gefferson Ramos Rodrigues, professor do curso de História da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), a obra neste local, é uma ameaça à  história da cidade, pois “a execução da obra não está sendo acompanhada por um profissional da Arqueologia, o que é determinado por lei”.  Gefferson diz que “A obra poderia ser melhor discutida com a sociedade… seguindo-se os protocolos”.

 

O professor relembra que no local já foram encontrados “Exemplares dos mais significativos da cerâmica tapajoara foram encontrados ali pelo etnólogo alemão Curt Nimuendaju no começo do século XX”, essas peças estão no Museu de Arqueologia da USP. Gefferson fala ainda que a “Boa parte do patrimônio edificado de Santarém se perdeu, apesar de contar ainda com alguns exemplares, como o Solar do Barão de Tapajós, atualmente se deteriorando”.

 

No entanto, o professor relata que é importante saber sobre a cultura material da cidade e da região, citando as produções  da região do Tapajós  e Arapiuns com toda a arte que é feita a partir das palhas.  Gefferson diz ainda que  “a cidade é rica culturalmente, mas o patrimônio material é mal conservado, contudo, a cultural imaterial é pulsante e pode ser vivenciada pelos seus moradores e visitantes”.

 

O caso tomou outras proporções

Na manhã  desta quarta-feira (05), o Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTap), protocolou junto ao Ministério Público, documento questionando o início das obras do “Shopping Popular”.

 

No documento protocolado, o Instituto diz que “Inicialmente, cumpre relatar, que a centenária Praça Rodrigues dos Santos faz parte do contexto histórico, cultural e arqueológico do município. Em 1661, o padre João Felipe Bettendorff abriu um “Largo” junto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição para nele fazer o trabalho de catequese dos Tapajó e outros povos indígenas que foram aldeados na Missão Jesuíta. Os indígenas chamaram aquele lugar de Ocara-Açu, que quer dizer “Terreiro Grande”. De lá para cá, Ocara-Açu teve outras denominações, algumas delas oficiais e outras de caráter popular”

 

O HGTap entregou o documento pessoalmente à promotora de Justiça Lilian Furtado, que respondia pelo plantão do MP no recesso do Judiciário. A comissão, liderada pela historiadora Terezinha Amorim, presidente do IHGTap

 

O IHGTap pede o deferimento da obra e finaliza falando que “ buscar esclarecimentos perante a municipalidade sobre a aludida edificação na Praça em comento, e outras medidas que entender necessárias sobre a melhor forma de preservar este espaço de Memória Histórica do Município de Santarém.”

 

Terezinha Amorim, importante historiadora Santarena, presidente do IHGTap, que já produziu diversos volumes sobre  a história de Santarém, disse em sua rede social que a atitude da prefeitura é “ insana e irresponsável” isso porque a obra vai “destruir o pouco que ainda resta do nosso patrimônio histórico e urbanístico e paisagístico, o marco histórico mais importante da nossa cidade”

Terezinha disse que o Instituto quer que o Ministério Público busque “esclarecimentos perante  a municipalidade sobre a aludida edificação na Praça em comento e outras medidas que entender necessárias"- Finalizou a historiadora. 


A promotora Lilian Braga foi quem recebeu o caso e disse que diante da gravidade dos  fatos poderia impetrar, ainda hoje, um pedido junto ao juiz plantonista para providências

 

Ao Tapajós de Fato, Auricélia Arapiun, coordenadora do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA),disse que esta obra, de responsabilidade da prefeitura, "chega a ser um crime”.

 

É importante ressaltar que nenhuma organização se coloca contra a construção de um espaço para os trabalhadores ambulantes, o que se questiona é o local escolhido para esse projeto.

 

O Tapajós de Fato ouviu também a estudante do curso de História da UFOPA, Maraya Machado, que desenvolve atividades dentro do Centro de Documentação  Histórica do Baixo Amazonas ela fala que “ as histórias dos povos indígenas estão sendo tratadas como nada, povos esses que dão origem a essa cidade”. A acadêmica questiona se “o progresso vale tanto… a ponto de destruir a história?- finaliza a acadêmica.




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