Sábado, 22 de Janeiro de 2022
Amazônia Morte

Arco Norte: a rota de destruição no Tapajós

O projeto é um exemplo da economia predatória que não garante o diálogo com a sociedade para a construção de um mundo com mais respeito à natureza e aos povos da Amazônia.

14/01/2022 às 09h45
Por: Tapajós de Fato
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Arco Norte: a rota de destruição no Tapajós

 

No começo dessa nova década, muito se comenta, entre os países ricos ou não, sobre os impactos das mudanças climáticas no cotidiano da vida no planeta e as formas de conciliar o “desenvolvimento econômico” ao lado da tal preservação ambiental, gerando acordos internacionais de combates a emissão de poluição seja no ar ou nas águas. Estes acordos são base de iniciativas de políticas entre estados, na tentativa de minimizar os impactos que  já são irreversíveis e vão se agravar nos próximos anos, como mostra o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, mas são formas importantes de debater a questão ambiental que precisa dar ainda mais importância para a questão.

 

Na contramão de tudo isso, porém, com foco na Amazônia se configura na defesa de empresários e do governo federal a implantação de um arco de logística para o escoamento da produção de grãos de soja e milho que cresceu de acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais - ANEC de 2003 a 2013 cerca de 228,6%. O plano central é escoar estes grãos do Centro-Oeste do Brasil para o Norte, sendo uma rota “alternativa” para o transporte para a Ásia.

 

Como dito no site do Canal Rural em maio de 2021, a estratégia do Arco Norte já está em processo, pois as exportações de soja e milho pelos portos do Arco Norte, totalizaram 42,3 milhões de toneladas em 2020, um aumento de 487,5% em relação a 2009. Porém, é preciso investimentos maiores. 

 

Para Frede Renero Vieira, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos Por Barragens – MAB, “esta forma que vem sendo executado é uma forma perversa, porque não está respeitando as comunidades ribeirinhas, não vai respeitar os indígenas, não vai respeitar os quilombolas, não vai respeitar o meio ambiente e a economia local”.

 

Para melhor contextualizar o chamado Projeto Arco Norte, como fala Sérgio Guimarães, Engenheiro e Coordenador do Instituto Centro de Vida – ICV e membro do Grupo de Trabalho sobre Infraestrutura na Amazônia – GT INFRA, “é um complexo de empreendimentos que busca investimentos sejam eles públicos ou privados no setor de infraestrutura, para a construção e intensificação de um corredor de transporte da produção”. A prioridade máxima são as hidrovias de Teles Pires–Tapajós, Arinos Juruena – Tapajós, Paraguai-Paraná e Araguaia-Tocantins e a Ferrovia de Ferrogrão (Sinop-Santarém).

 

No relatório do Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC, realizado em 2019, menciona sobre o perigo, em particular da hidrovia de Teles Pires-Tapajós, pois as hidrovias são um tipo de transporte que ocorre em rios e lagos, porém, é preciso ter uma grande profundidade para garantir a passagem das barcaças independente das dinâmicas da cheia e seca dos rios. 

Além disso, é preciso que tenha poucas curvas, para o melhor transporte, o problema em questão é que para que essa “harmonia”, precisa-se dragar o rio, ou seja, aprofundando-o na retirada de pedras, areia ou qualquer obstáculo que esteja no caminho, inclusive as curvas naturais do rio, destruindo peixes e plantas aquáticas.

 

Ainda para Frede Renero Vieira, o Arco Norte no Tapajós “se materializa na expansão do capitalismo nessa região com a intencionalidade de fazer o saque das riquezas dessa região, de continuar explorando e mantendo esse processo de domínio do saque, futuramente vão argumentar e fazer a defesa que é necessário a construção de hidrelétricas para dar mais potencial ao Arco Norte”.

 

A Ferrogrão, como obra também principal do Arco Norte, ainda com processo paralisado pelo STF, porém, está com julgamento marcado para 15 de junho de 2022, onde os ministros da Corte podem manter ou reverter a decisão. Em entrevista ao jornal Istoé, o ministro de Infraestrutura disse que está otimista já para começar o processo de leilão da obra, orçado em R$ 8,4 bilhões de investimento privado.

 

Os planos e execução é uma forma de desenvolvimento sem envolver de fato as pessoas, para além disso, causa impactos na natureza e nas comunidades, complementa Frede Renero Vieira “já está trazendo prejuízo para as comunidades e para o meio ambiente na região, pois ela não atende à necessidade humana”.

 

O Tapajós de Fato, como em reportagens anteriores, discute e apresenta esta forma predatória de economia, garantindo o debate e trocas de saberes com a sociedade para a construção de um mundo com mais respeito à natureza e aos povos da Amazônia. Principalmente no tema do Arco Norte com foco em novas hidrovias e ferrovias no Tapajós em respeito às cidades e as comunidades tradicionais.



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