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Gênero e Sexualidade #TBT

“Sempre em frente” é o lema da empoderada mototaxista Jucivania Duarte

O gênero ainda influencia na escolha profissional, mas a presença feminina está em ascensão em formações e carreiras que por muito tempo eram tidas como masculinas.

12/08/2020 10h00 Atualizada há 4 meses
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Jucivania Duarte em uma de suas paradas de mototaxista.
Jucivania Duarte em uma de suas paradas de mototaxista.

 

 “Lugar de mulher é na cozinha” ou “Quero ver carregar um pacote de cimento”. Frases como essas são lidas diariamente em alguns comentários feitos por homens na internet, ao se depararem com mulheres ocupando cada vez mais espaços onde até então só eles poderiam estar. Existem várias mulheres que não se deixam abalar por comentários como esses, empoderadas e com garra para alcançar seus objetivos, elas mostram para todos a veracidade daquela famosa frase: Lugar de mulher é onde ela quiser!

A força feminina empodera inclusive para exercer atividades como de mototaxista, que é o caso da Maria Jucivania Duarte de Sousa, de 43 anos e que há sete exerce essa profissão. Filha do Tapajós, nascida em Belterra, aos 20 anos veio para Santarém estudar e trabalhar, uma mulher que é um grande exemplo de que se você quer trabalhar em algo, não deve se intimidar caso a maioria de seus colegas de trabalho forem homens. Solteira e mãe de um menino de nove anos, Juci como é chamada, é a única fonte de renda da casa e se divide durante o dia a dia nos papéis de mãe e mototaxista, mas em meio a pandemia do novo coronavírus, que fez boa parte a população mundial mudar muitos dos seus hábitos, ela optou por sua segurança e de seu filho, e deu uma pausa por um tempo em seu trabalho de pilotar sua moto pelas ruas de Santarém.

Em entrevista ao Tapajós de Fato, Jucivania Duarte contou como escolheu a profissão, como é a vida sendo mototaxista e como está sendo viver em meio a uma pandemia. 

T.F- De onde surgiu a vontade de ser mototaxista?

J.D- Eu trabalhava como vendedora e engravidei, então após ter meu filho, para eu poder trabalhar minha irmã tinha que ficar com ele, e sempre foi somente eu e ela. Na época eu morava na comunidade de São José, e ficava pouco tempo com ele que ainda era pequeno. Foi quando surgiu o edital da licitação para mototáxi, e o meu ex-cunhado deu a ideia “Olha você tem moto, deveria arriscar”. Foi então que entrei. Mais por necessidade também, pois na hora que o meu filho precisar de mim eu vou poder estar lá, sendo mototaxista posso fazer meu horário e meu trabalho, e sendo empregada não, o patrão nunca entende isso.

T.F- Você foi a primeira mototaxista?

J.D- Não, quando entrei já tinham duas, e junto comigo entraram mais duas, atualmente atuando somos 5 mulheres.

T.F- Como é a rotina de ser mãe e mototaxista?

J.D- A rotina de ser mãe, antes da pandemia, começava as 6h quando eu acordo, às 7h30min levava  meu filho até a escola e enquanto isso saía para trabalhar, às 11h30min ele era liberado e nós retornávamos para casa, após o almoço eu saía novamente para o trabalho e ele ficava com a minha irmã, e quando anoitecia eu voltava para casa, não trabalho a noite. Quanto a rotina de mototaxista, bom, é cansativa, mas a gente precisa trabalhar, porém eu gosto, só não gosto mais porque o sol é muito quente, mas fora isso eu gosto. Eu adoro moto, trato bem meus passageiros, eu digo “bom-dia”, “boa tarde” e “obrigada”.

T.F- Como foi a receptividade dos seus colegas de trabalho?

J.D- Muito boa, eles me respeitam. A gente brinca, bate papo, para eles é normal, até porque já tinham duas antes de eu entrar.

T.F- Você já percebeu, por parte de suas passageiras mulheres, se elas sentem- se mais seguras por você ser uma mototaxista mulher?

J.D- Com certeza! A maioria se sente bem, conversam, me dão parabéns, falam “Poxa, você é uma vitoriosa por estar num ramo desse perigoso”. A maioria me dá parabéns.

T.F- Como você analisa a questão de mulheres trabalharem em profissões ditas como masculinas?

J.D- As pessoas usam isso de “tal profissão é masculina”, mas nós mulheres somos capazes de exercer e muito bem qualquer profissão, tiramos de letra. Porque nós gostamos das coisas mais certinhas, mais direitinhas, mais arrumadinhas, e desse jeito temos mesmo que seguir em frente.

T.F- Como está sendo trabalhar em meio a essa pandemia?

J.D- Neste período da pandemia não estou trabalhando como mototaxista, e nem tenho saído, pois estou com medo por ter problema de saúde e por ter uma criança em casa também. Mas assim que acabar tudo isso, eu retorno as ruas para exercer minha profissão.

T.F- E como você está se reinventando nesse período?

J.D- Como sou a única renda da casa, as coisas ficam ainda mais difíceis, durante um tempo o auxílio emergencial me ajudou bastante, não é algo para luxar e sim para o básico, pois é somente eu e meu filho. Porém, com passar do tempo o meu psicológico foi ficando cada vez mais afetado, então decidi junto com a minha irmã e minha vizinha fazer uma venda de guloseimas na frente de casa. E com essa ideia, além de ajudar na renda, eu consigo me distrair e não pensar em coisas ruins como estava pensando em boa parte do tempo.

T.F- Para finalizar gostaríamos que você deixasse uma mensagem para as nossas leitoras. Para que elas se inspirem também na sua história.

J.D- Mana, não tenha medo! O meu caso foi a necessidade no sentido de ter um filho, de ser mãe solteira e pensar “eu preciso trabalhar”. Não tenha medo, é botar a cara na frente e ir, porque hoje temos colegas que são motorista de ônibus, por exemplo, e por aí vai. Temos que ir à luta, não ficar só atrás do fogão, nunca isso! Vamos estudar! Se quer estudar, vai, nunca desista! Sempre em frente!

 

Por: Isabelle Maciel/ Tapajós de Fato

 

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