Quinta, 26 de Maio de 2022
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Rio Tapajós pode enfrentar uma das maiores enchentes da sua história, em 2022

O rio Tapajós pode ultrapassar os níveis de cheia de anos anteriores devido aos sistemas climáticos La Niña e a Zona de Convergência Intertropical - ZCIT que é responsável pelo inverno Amazônico.

18/01/2022 às 09h48 Atualizada em 18/01/2022 às 12h22
Por: Tapajós de Fato
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Adonias Siva
Adonias Siva

O Rio Tapajós está em alerta para uma possível enchente para o ano de 2022, na última medição realizada no dia 12 de janeiro a Defesa Civil de Santarém registrou a marca de 5,56 metros do nível do rio. Em 2009, ano da maior cheia da região, nesta mesma data o nível alcançado foi de 3,72m, ou seja, o nível está 1,50m acima da cota de 2009. A cota de alerta do município é de 7,10 m. 

 

A intensidade das chuvas e o aumento do nível do rio Tapajós têm sido observada pelos ribeirinhos e os deixado em alerta, a liderança do Assentamento Agroextrativista Montanha-Mangabal, seu Ageu Lobo da etnia Apiaká, informa que o nível do rio Tapajós este ano está acima das marcações de anos anteriores: “Aqui na comunidade os moradores mais antigos, como por exemplo, o seu Almiro Braga ele costuma marcar as enchentes do rio numa árvore que chama Piranheira, e este ano já está marcando o nível máximo atingido em 2014 que está anotado lá na plaquinha, foi à época que eu vi o rio mais cheio”. 

 

A possibilidade de uma enchente preocupa os ribeirinhos, principais atingidos pela cheia dos rios, que precisam mudar de residência e buscar abrigo em outros locais, de acordo com seu Ageu Lobo: “ Em 2014 foi uma das maiores enchentes e isso afetou muitas casas, as pessoas foram morar na casa de outros comunitários, foi assim, bem sufoco para nossa comunidade que não estava acostumada com essa situação”, explica a liderança.

 

A subida do rio e as fortes chuvas na região requerem o alerta e monitoramento das autoridades, nesse sentido no último sábado (15) foi publicado o decreto Estadual nº 2.117/2022 autorizando o pagamento de um salário mínimo para famílias atingidas por alagamentos em decorrência das fortes chuvas. A verba financeira faz parte do Programa Recomeçar.

 

Causa do aumento da cheia dos rios

 

As chuvas na região Norte estão mais intensas e iniciaram um pouco mais cedo, fatores dos sistemas climáticos influenciam o aumento das chuvas no Pará. De acordo com a Professora Leidiane Leão de Oliveira do Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA) da Universidade Federal do Oeste do Pará: “Isto se deve a atuação de dois sistemas climáticos: La Niña, que causa chuvas acima do normal climatológica para nossa região e a Zona de Convergência Intertropical - ZCIT que é responsável pelo nosso inverno Amazônico, ocorreu à aproximação precoce da ZCIT em decorrência da temperatura da superfície do oceano atlântico equatorial estar mais elevada que o normal. Essas duas combinações estão favorecendo as chuvas acima da média na região e no estado do Pará”, explica a pesquisadora.

 

A professora fala que as chuvas continuarão mais fortes nos próximos meses e isso pode resultar no aumento do nível dos rios. Para a pesquisadora: “Segundo os modelos globais de Temperatura da Superfície do Mar-TSM indicam que este padrão permanecerá, favorecendo as chuvas na região. Então, podemos esperar chuvas acima e muito acima da média histórica para os próximos meses para nossa região e grande parte do estado do Pará”.

 

A chuva na região tem sido frequente e já se percebe que possivelmente haverá uma cheia de grande extensão na região e restante do estado “é esperado um volume de chuva em torno de 230 mm para janeiro e até agora dia 14/01/22 já choveu 300 mm. Em janeiro temos em média 18 dias com chuva segundo a série histórica e esse ano até dia 14/1 já tivemos 10 dias com chuva, registros estes, muito acima da média histórica”, explica a professora.

 

Ainda de acordo com a cientista a previsão de chuvas acima do normal na bacia do rio Tapajós e Amazonas para os meses de janeiro, fevereiro e março é esperado que o rio Tapajós, na região de Santarém-atinja  a sua respectiva cota de alerta antes do período considerado normal. Assim, como os dados de nível do rio Tapajós e Amazonas apontam níveis muito acima da média histórica registrada para janeiro, que somado a previsão de chuva acima do normal até março e se confirmar esta previsão, é possível que haja uma das maiores cheias dos últimos anos na região.

 

A Professora Leidiane Leão, informa que é preciso avaliar a previsão de chuva na bacia hidrográfica como um todo, incluindo as cabeceiras que se encontram no estado do Mato Grosso. Para o estado do Mato Grosso as chuvas devem ficar acima do normal na maior parte da Região. Já para Santarém e Oeste do Pará, a previsão para janeiro, fevereiro e março é de chuvas muito acima do normal (janeiro) e acima do normal (fevereiro e março). Essas configurações continuam favoráveis para a situação das cheias dos rios no estado, que devem atingir as suas respectivas cotas de alerta antes do período considerado normal.

 

Em anos normais o rio Tapajós, em frente à cidade de Santarém-PA atinge o seu nível máximo, no mês maio, atingido em torno de 7 m, e normalmente, em janeiro se esperava um nível médio de 3,8 m e no dia 14/1/22 já estava com 5,57m, conforme aponta dados da defesa civil do município.

 

Em estudo realizado pela pesquisadora, onde foi avaliada a série histórica de dados do nível do rio Tapajós na região de Santarém, o estudo apontou que em anos de cheia, em média, o rio fica 1 m acima do normal.


Para quem tiver interesse em conhecer um pouco mais sobre o assunto pode acessar o artigo “Efeitos dos eventos extremos climáticos na variabilidade hidrológica em um rio de Ecossistema Tropical Amazônico”, desenvolvido pela pesquisadora Leidiane Leão de Oliveira, disponível no link: https://www.researchgate.net/publication/342571810_Efeitos_dos_ ventos_extremos_climaticos_na_variabilidade_hidrologica_em_um rio_de_Ecossistema_Tropical_Amazonico

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