Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Resistência

Avanços e desafios na luta contra a intolerância religiosa, no Baixo Amazonas

A data é lembrada como um dia de reflexão da importância do respeito e diálogo entre as diferentes religiões.

21/01/2022 às 14h03
Por: Tapajós de Fato
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Isabela Alves
Isabela Alves

Dia 21 de janeiro é comemorado o Dia Internacional da Religião, a data foi instituída em dezembro de 1949, após a Assembléia Religiosa Nacional dos Bahá'ís e tem por objetivo promover a reflexão da importância do respeito e diálogo entre as diferentes manifestações religiosas.

No Brasil, no dia 21 de janeiro é celebrado também o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa instituído pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, após o falecimento da mãe de Santo Gildásia dos Santos, que morreu por problemas de saúde agravados pela perseguição religiosa, após o seu terreiro ser invadido e violado. O referido instrumento jurídico é uma ferramenta para incentivar a convivência pacífica entre as doutrinas religiosas no país.

Apesar da existência da legislação, ainda é alto o índice de casos de intolerância religiosa no país, em especial às religiões de origem afrodescendente.

A história é marcada por diversos momentos onde a intolerância religiosa tomou proporções imensas e resultou por exemplo na Santa Inquisição, um dos momentos mais violentos que a história religiosa já conheceu.

Atualmente, no Brasil, o debate acerca da importância do assunto ganhou mais força com a criminalização da prática de intolerância religiosa, de acordo com o artigo 208 do Código Penal “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso, a pena pode ser de 1 (um) mês à 1 (um) ano de detenção, ou multa”

 

Importância da data comemorativa

 

Para falar do assunto a equipe do Tapajós de Fato conversou com Izonara Souza, "Omifenile", dentro da tradição religiosa do Candomblé,  comunga o cargo de Hunsó na Comunidade “XWE OTO SINDOYÁ" e o pai de Santo Clodomilson de Ogum, ambos destacaram a importância da data para os praticantes de religiões de tradição africana.

Izonara ressalta a importância da data para incentivar o respeito e a desconstrução de ideias preconceituosas sobre às práticas do candomblé: “A importância da data do combate à intolerância religiosa para mim é para dar visibilidade e vigor à luta pelo respeito a todas as  religiões,  em especial às de tradicionais Africanas”.

 

Em relação à luta no combate ao preconceito, Izonara fala que é “um desafio a desconstrução de opiniões e pensamentos errôneos e maldosos. É momento de mostrar que somos pessoas do bem, trabalhadoras,  pais e mães de família decentes, como qualquer cristão. Somos acolhedoras,  que  sabemos dar e receber amor, que criamos vínculos entre pessoas e por isso merecemos respeito”, afirma a Izonara.

 

Acervo pessoal de Izonara
Acervo pessoa de Izonara

O Pai de Santo Clodomilson relata que desde suas primeiras manifestações mediúnicas, ainda na infância, passou por muitos desafios relacionados à intolerância religiosa dentro da própria família. Clodomilson fala que começou  a manifestar os dons “aos sete anos de idade e meu pai na época era contra a religião, porque ele era de uma religião cristã diferente, aí me batia muito, e eu tive que ir morar com um curador até aos 16 anos e depois precisei procurar outros terreiros e vim para Santarém continuar a prática de minha fé, hoje defendo a religião como comendador do estado pela luta contra à intolerância religiosa”, conta Pai Clodomilson.

A data representa um avanço na luta por uma sociedade mais aberta ao respeito às práticas e crenças religiosas, como menciona Pai Clodomilson, “para mim é uma importância tão grande, pois chegamos a esse patamar de não precisar mais ficar escondido no fundo quintal com medo de apedrejamento e repressão policial, porque não foi fácil. Estamos aqui lutando de frente, ministrando palestras e reivindicando nosso direito de cultuar nossa fé dia após dia”, relata o Pai de Santo.

Acervo pessoal de Clodomilson

 

O caminho para o respeito e a construção de uma sociedade mais aberta às diferenças ainda é longo, nesse sentido mãe Izonara fala dos desafios que enfrenta enquanto praticante do candomblé “É desafio manter viva a fé diante de tantos preconceitos, das agressões verbais, indiferença no ambiente de trabalho, ameaças de depredação de casa, liberdade de vestimentas, dentre tantos outros”. Boa parte da sociedade precisa entender que a cultura afro não se trata de uma disputa por um lugar ou ordem, mas por valores civilizatórios.

A sociedade ainda precisa avançar para a garantia dos direitos das pessoas manifestarem sua fé sem medo de represálias. “Precisamos ter chances de oportunizar momentos com gestores  e dialogar ferramentas de eficácia para combater a intolerância e fazer entender que as religiões sem distinção,  são manifestações culturais legítimas e precisam ser preservadas, afinal, são patrimônios históricos”, diz mãe Izonara.

De acordo com os entrevistados, os praticantes de religiões de matriz africana ainda enfrentam o desafio de alcançar mais espaços para debater os direitos de manifestar sua fé. “Nosso principal desafio é conseguir espaços públicos para manifestar nossa fé e nossos eventos, gostaríamos de poder utilizar praças para fazer nosso eventos e rituais, um espaço para nós povos de terreiro seria muito importante para nossa garantia de direito, pois outras religiões podem manifestar sua fé em espaços públicos”, afirma Pai Clodomilson.

A religião se mostra presente no cotidiano da sociedade, porém, a liberdade religiosa e o livre direito de circulação e de pensamento são prejudicados pela ausência de respeito pela fé alheia, Izonara Souza fala da necessidade de poder cultuar sua fé livremente sem medo de ataques “eu gostaria de gritar o meu desabafo, sou religiosa SIM e amo o meu sagrado, eu não obrigo ninguém a me aceitar,  mas exijo a me respeitar, não nego a minha identidade religiosa a ninguém e jamais farei para agradar.  Amigos, irmãos na fé, vamos dar as mãos, não só nesse momento, vamos lutar e vamos vencer. Deus e Orişá são por NÓS”.

Um dos principais objetivos da tolerância é a coexistência pacífica entre os povos e nações com as histórias, culturas, tradições e, principalmente, religiões dos demais, sem qualquer tipo de interferência, restrição, desrespeito ou violência “ a união, a paz e o respeito pelas etnias são essenciais para garantir um caminho menos conflituoso entre a sociedade”, conclui o Pai Clodomilson.

Os conflitos derivados de problemas religiosos que temos atualmente são tão complexos que a comunidade como um todo precisa de esforço para garantir este Direito Humano essencial ao bem-estar das pessoas.

Como Denunciar

Em casos de violência física e verbal contra a prática religiosa de determinado indivíduo, a vítima deve buscar realizar denúncia em qualquer delegacia, pois a prática de intolerância religiosa é classificado como crime sujeito a prisão e/ou multa.

 

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