Quinta, 26 de Maio de 2022
Amazônia Extinção

Crise climática poderá ameaçar o extrativismo na Amazônia?

Pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas em árvores e palmeiras na Amazônia brasileira mostra que diversas espécies estão ameaçadas de extinção.

11/03/2022 às 12h03 Atualizada em 04/04/2022 às 15h59
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Fonte: AmbienteLegal
Fonte: AmbienteLegal

No Brasil e em especial na Amazônia existe a extração de produtos extrativistas ou nativos da biodiversidade, sendo uma atividade com muita ocorrência onde se destaca o papel dos extrativistas. A atividade vem atravessando os ciclos econômicos, pode-se dar o exemplo das “drogas do sertão”, na extração de borracha, mel, óleo de copaíba, cacau, entre outros produtos. Sendo ainda hoje base de sobrevivência de milhares de pessoas como principal atividade regional, porém, diferente do passado sua prática tem objetivos de não ser predatória, e sim de respeito a natureza, hoje estas atividades são o que se chama de bioeconomia.

 

A bioeconomia é uma das formas de solução para o desenvolvimento sustentável que reuniu muitas formas de conhecimentos com o propósito de criar produtos e serviços que causem menos impactos na natureza usando para isso recursos biológicos, inovando em novas formas de energias, alimentação e etc.

 

A pesquisa

 

Dentro este tema o Tapajós de Fato, procurou Samuel Gomide, Doutor em Zoologia, professor da Universidade Federal do Pará – UFOPA no campus de Oriximiná, que fez parte de uma pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas em várias espécies de árvores e palmeiras na Amazônia brasileira com parceria de outras cinco universidades públicas, como: Unb; UFMT; UEFM; UNIMAT e UFOPA.

 

A pesquisa contou com apoio de bolsas de pós-graduação fornecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso – FAPEMT.

 

Os Dados

 

Samuel Gomide, destaca inicialmente que: “nosso estudo avaliou o impacto que essas alterações climáticas causam em árvores e palmeiras, que são os principais produtos florestais extraídos nas reservas extrativistas. As alterações que levam a mudança no regime de chuva, de seca, de calor, de frio ao longo do tempo, impactam diretamente o ciclo de vida dessas espécies e, portanto, podem causar danos na produção de frutos e outros produtos ligados àquelas espécies. Então no caso das mudanças do clima impactam diretamente nesses produtos que são extraídos da floresta e consequentemente as populações que dependem desses produtos ficam sem a safra anual”.

 

A partir do estudo Samuel alerta: 

“O estudo avaliou 18 de árvores e palmeiras que são extraídas nas reservas extrativistas. Basicamente 11 espécies tiveram perdas significativas, porém a mais impactada é a castanha do Pará. Então nós também avaliamos outros produtos como açaí, andiroba, copaíba, seringueira, cacau, dentre outros. Mas a maior perda vai ocorrer na castanha. Que em trinta anos é possível que ela tenha uma redução de 25% de sua área de distribuição original. Podendo deixar de existir em nove reservas onde atualmente é extraída. Isso é uma perda muito grande considerando o impacto social e econômico”. Por exemplo, dados de 2019 mostram que foram extraídos no Brasil cerca de 30 toneladas de castanha, gerando uma receita de cerca de 23 milhões de dólares. Então a redução na distribuição e na produção da castanha irá impactar tanto as famílias que dependem desse fruto como alimento, como também a renda familiar.

 

O professor conclui deixando uma mensagem de cuidado: “Se não houver um controle de desmatamento, destruição dos hábitos naturais, assim como investimentos na ciência, na educação para estudar e conhecer melhor esses efeitos sobre a nossa biodiversidade e proteger as áreas naturais existentes como uma forma de evitar que esse cenário se confirme”.

 

Percepção desses impactos para os extrativistas

 

O Tapajós de Fato também conversou com Rosa Godinho, Engenheira Agrônoma, coordenadora do Centro de Apoio a Projetos de Ação Comunitária - CEAPAC e do comitê gestor do Fundo DEMA, com vários projetos de extrativismo comunitário.

 

Ela fala que: “A crise climática não é só um processo de mudança, ela traz consequências gravíssimas também. Tanto para as questões sociais, ambientais e muito mais do que isso são questões econômicas. É uma crise global. Ela não é uma mudança que acontece num determinado território, numa região ou numa determinada parcela de algum bioma, mas sim global. Porque é a floresta em pé que também diminui o impacto da mudança do clima ou da crise climática”.

 

Rosa Godinho, finaliza falando da percepção e desafios já existentes no extrativismo comunitário: “muito nessa perspectiva também de pensar estratégias da segurança alimentar e nutricional de como esses projetos são desenvolvidos e como o extrativismo se comporta nesse nessa problemática que é global. O extrativismo hoje comporta no momento que as populações insistem pela defesa do seu território fazendo com que a sua sobrevivência tanto na questão alimentar nutricional e econômica ela seja retirada da floresta mais com responsabilidade ela seja tirada de forma pensada naquilo que a constituição brasileira. Que a gente deve preservar o ambiente para a presente e futura geração”. 

 

O Tapajós de Fato buscou trazer uma problemática existente em muitos territórios já ameaçados, que mesmo sendo uma negação de autoridades públicas e empresas é uma realidade difícil e que pode ficar ainda pior se nada for feito tanto no âmbito público como privado, as consequências serão ainda mais potentes para os que vivem dessa forma de economia e princípios com a natureza.  

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