Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Denúncia

Lago do Jacundá: área importante para o povo de Alter do Chão encontra-se ameaçada

Assoreamento das nascentes, cercas irregulares, invasão ao território e desmatamento tem comprometido a vida do lago. Pescar no local tem sido uma tarefa difícil, até os pescadores mais experientes têm dificuldades.

15/03/2022 às 16h20
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto reprodução
Foto reprodução

Localizado na vila de Alter do do Chão, o Lago do Jacundá, que também dá nome a um bairro na vila, vem sofrendo cada dia mais com as atividades desenvolvidas dentro e no entorno de suas margens. Pescadores têm enfrentado, a cada dia, mais dificuldades para conseguir alimento nas águas do lago. 

 

A equipe do Tapajós de Fato foi chamada por indígenas Borari que estão preocupados com a situação do lago. A região do Jacundá é o local onde os moradores tradicionais de Alter do Chão moram, pois a parte da frente da vila, com vista para a praia foi totalmente ocupada por pessoas de fora da região; hotéis, bares e restaurantes que funcionam para atender as necessidade de um público passageiro, os turistas.

 

Quem tem a pesca como fonte de subsistência vem enfrentando grandes desafios para conseguir colocar alimento na mesa. Não é apenas uma atividade que vem comprometendo o Lago do Jacundá, seu Zelinaldo Silva, pescador, fala que limpa a beira do lago, mas com a enxurrada que desce pelas ruas da vila vão diretamente para o lago, levando lixo e tampando as passagens abertas pelo morador, isso vem acelerando o processo de assoreamento do lago do Jacundá, o pescador conta que “colocava malhadeira de  60 metros e ela não não dava de uma beira na outra, agora não dá mais 60 metros, o lago diminuiu”.

Os moradores reclamam que a Secretaria de Infraestrutura realiza apenas a planagem  das travessas, com a chuva, toda terra remexida pelas máquinas desce em direção ao lago, além de assorear, as ruas se tornam valas e dificulta o ir e vir dos moradores.

 

O que garante o lago do Jacundá são as nascentes dos igarapés, durante a apuração feita pela equipe do Tapajós de Fato com os moradores da área, eles  mostraram a situação de uma as nascente que alimenta o lago, como a área já está totalmente ocupada por moradores, cercas  foram construídas impedindo a passagem por onde os moradores tradicionais tinham acesso ao igarapé. 

 

 

A água da chuva desce pela estrada levando folhas e areia em grande quantidade, o que compromete a nascente.

 

 

A quantidade de lixo que vai parar nas água é grande, segundo Zelinaldo, quando coloca a malhadeira. “Ela é retirada do fundo com uma goma do fundo [a lama grossa que gruda na malhadeira], quanto mais tempo a malhadeira fica na água, mais trabalho dá para limpar a rede”.   

 

O pescador relembra que há tempos atrás deixava a malhadeira a noite toda na água e, pela manhã tinha peixes, e a malhadeira ficava apenas com o sujo natural do rio. “Antes era mais fácil em tudo, até matar cobra [sucuri] o meu avô tinha trabalho. Zelinaldo fala que a destruição que vem ocorrendo no lago tem feito os peixes sumirem e com isso as cobras também vão.



A experiência de uma vida toda de pescador tem levantado muitas preocupações em Zelinaldo da Silva, pois o pescado é a fonte de alimento e de renda de toda sua família. Ele conta que, “no Jacundá só tem peixe de lago mesmo, carazinho, algum tucunaré que tem por aqui, e é contado, não é muito como era antes não”, diz o pescador.

 

O lago já teve abundância de peixe, os moradores conseguiam pescar  apenas com anzol e caniço, “pela beira do lago, e de repente já tinha o que comer, hoje em dia não, a beira do lago seca, para você arranjar o negócio do almoço, de comer, é sofrido, tem que que pelejar mesmo. Se não souber o que está fazendo, não come”, relata Zelinaldo.

 

Mesmo com as dificuldades, Zelinaldo continua exercendo a atividade de pescador, mas agora já precisa se deslocar para locais mais distantes de sua casa, o pescador conta que durante  anos conseguiu  pegar grande parte do pescado apenas no lago do Jacundá. 

 

A lama que desceu pelo rio Tapajós por conta das atividades de garimpo que se intensificaram nos últimos anos, fazendo  as águas do rio  mudarem totalmente a sua cor. Isso tem causado medo em quem depende das águas para conseguir alimento. Zelinaldo  relata que “nas áreas onde a lama chegou, não se vê mais nenhum  peixinho pular”.  O pescador conta que a preocupação é que a lama possa espantar “por completo o restante do peixe, eles vão procurar um outro lugar que ‘teje’ mais limpo e pode sumir de uma vez daqui”.

 

 

Na foto acima é possível perceber como a lama adentrou  no lago. Na foto  a seguir, tirada na parte mais próxima da nascente do igarapé do Jacundá é possível ver como a água  era antes da lama. confira:

 

 

A especulação imobiliária tem sido cada vez mais intensa na região de Alter do Chão, os indígenas são os principais afetados, os locais próximo às margens já foram invadidos por pessoas de fora da vila, mas os moradores  não deixaram o local ser ocupado, ficou para trás apenas a área desmatada que foi invadida.

 

É proibido ancorar barcos no lago do Jacundá, mas os moradores reclamam que diversas vezes já se depararam com barcos atracados no lago, esses barcos descartam lixos e fezes e os peixes acabam se alimentando dos dejetos. O problema se agrava porque muitos moradores dependem da água do lago para a maior parte de suas atividades, Zelinaldo relata que já chegou a jogar peixes fora porque  o intestino do pescado estava cheio de fezes humanas.

 

Outro problema que tem contribuído para a destruição do lago do Jacundá é a destruição da vegetação da margem e algumas árvores de dentro do lago que já foram derrubadas, alterando o ambiente natural.

 

Na próxima semana o Tapajós de Fato traz mais informações  sobre a Vila de Alter do Chão e como o modo de vida dos moradores vem sendo alterado, siga acompanhando.

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