Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Pedofilia

Análise do aumento e dos casos de abuso e exploração sexual infantil no Baixo Amazonas

Análise indica aumento de casos de abuso e exploração sexual no Baixo Amazonas: Santarém, Oriximiná, Prainha, Mojuí dos Campos, Faro, Terra Santa e Almeirim.

29/03/2022 às 10h02 Atualizada em 01/04/2022 às 10h10
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Fonte: BBC NEWS
Fonte: BBC NEWS

O Brasil ocupa o segundo lugar, estando apenas atrás da Tailândia, num triste ranking da exploração sexual de crianças e adolescentes. Por ano, de acordo com um panorama organizado pelo Instituto Liberta, são 500 mil vítimas.

 

Os números mostram que, a cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes são explorados sexualmente no Brasil – no entanto, esse número pode ser ainda maior, já que apenas 7 em cada 100 casos são denunciados.

 

O estudo ainda informa que 75% das vítimas são meninas e, em sua maioria, negras. Elas são vítimas de espancamentos, estupros, estão sujeitas ao vício em álcool e drogas, bem como infecções sexualmente transmissíveis.

 

Casos de violência sexual contra crianças e adolescentes deixam marcas que vão além do físico, marcam o psicológico e a vida da vítima, por isso é importante uma rede de proteção e apoio as vítimas.

 

Por isso, nos estudos de Jane Felipe em 2006 e 2014, professora e coordenadora do grupo de estudos de educação e relações de gênero – GEERGE, fala que a criança e adolescente é vítima do que tem de mais precioso, sua inocência, virando até um mercado de exploração de seu corpo, como no conceito de pedofilização: seja através da mídia – publicidade, novelas, programas humorísticos – seja por intermédio de músicas, filmes, etc., onde os corpos infanto-juvenis são acionados de forma extremamente sedutora. São corpos desejáveis que misturam em suas expressões, gestos, roupas e falas, modos de ser e de se comportar bastante erotizados.

 

A equipe do Tapajós de Fato procurou Aline dos Santos, Conselheira Tutelar 2 em Santarém menciona que: “sobre o abuso sexual e violação de direitos tem tido um aumento muito significativo. Principalmente no período de pandemia. Então, dificilmente a criança ou adolescente ele vai chegar à família e vai relatar o que está acontecendo”.

 

Exploração sexual X abuso sexual

 

 O abuso sexual é aquele que:

 

–  Não envolve dinheiro;

– Acontece quando uma criança ou adolescente é usado para estimulação ou satisfação sexual de um adulto, podendo ou não possuir contato físico;

– É normalmente imposto pela força física, pela ameaça ou pela sedução;

– Pode acontecer dentro ou fora da família.

 

Já a exploração sexual é aquela que:

 

– Envolve uma relação de mercantilização, na qual o sexo é fruto de uma troca, seja ela financeira, de favores ou presentes;

– Crianças ou adolescentes são tratados como objetos sexuais ou como mercadorias;

– Pode estar relacionada a redes criminosas.

 

Dentre as formas de exploração estão a pornografia, tráfico para fins sexuais, exploração sexual agenciada (quando há terceiros intermediando) e exploração sexual não agenciada (geralmente em troca de um bem, drogas ou serviços).

 

Alguns casos de grandes repercussões de Pedofilia no oeste do Pará

 

Nos municípios do oeste do Pará casos foram registrados sobre a acusação de pedofilia. Os principais casos em destaques que serão relembrados nesta reportagem envolvem pessoas de grande influência de poder com as vítimas seja econômica ou social na cidade de Santarém, Oriximiná e Prainha.

 

Santarém 

 

O primeiro caso envolveu o médico Álvaro Cardoso Magalhães, Odete Friss e Darliane Silva dos Santos, presos durante a operação ‘Anjo da Guarda', deflagrada no dia 3 de julho de 2017.

 

As vítimas eram duas crianças do sexo feminino, sendo uma de quase 3 anos e uma de três meses. Materiais como notebook, tablet, celular dentre outros eletrônicos que armazenam mídias, foram apreendidos na casa do médico. 

 

Álvaro Cardoso Magalhães foi condenado em 2017 a 22 anos de prisão, já as mulheres pegaram 14 anos de prisão.



Médico Álvaro Cardoso Magalhães preso por crime de Pedofilia e Estupro de vulnerável — Foto: Reprodução/TV Tapajós



Oriximiná

 

O segundo caso é de Marcelo Sampaio Mouro, 49 anos, que no ano de 2019 abusou de suas duas filhas, uma de 9 e outra de 11 anos, foi denunciado após ser visto por vizinhos abusando de uma de suas filhas. As crianças foram encaminhadas ao Conselho Tutelar onde foram atendidas por uma psicóloga, e durante o atendimento a menina de 11 anos, confirmou que o pai cometia o abuso sexual. 

 

Prainha

 

O terceiro caso é de Valdicley Fonseca da Costa, no ano de 2019, que abusou sexualmente de suas duas enteadas, uma de 5 e 12 anos, a denúncia foi feita pelas vítimas e a mãe. Logo após a denúncia, a menina de 12 anos foi encaminhada para a realização de exames que comprovaram o abuso sexual.

 

Análise dos aumentos no ano de 2020 e 2021 no Baixo-Amazonas

As fontes dos dados para verificar os índices de violência sexual em nosso estado é o Registro Mensal de Atendimento (RMA/CREAS) que coleta os dados a partir dos atendimentos realizados nos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) distribuídos pelos 144 municípios do estado do Pará.

 

Os principais dados coletados são:

 

  • Tipo de violência (abuso ou exploração sexual);

  • Ano de ocorrência da violência;

  • Município em que a violência ocorreu;

  • Gênero da vítima;

  • Idade da vítima;

 

Os dados a seguir contemplam vítimas de abuso e de exploração sexual de 0 a 17 anos de idade, tanto do gênero masculino e quanto do gênero feminino, e representam 2.706 casos de violência sexual cometidos contra crianças e adolescentes paraenses no período de 01.01.2020 a 30.04.2021.

 

No Baixo-Amazonas no ano de 2020 tiveram 187 casos de abuso sexual e 17 casos de exploração sexual e em 2021 (janeiro e abril) 62 casos de abuso e 2 casos de exploração. Os municípios com maior número de violência sexual em 2020 são: Santarém, Prainha e Oriximiná; no ano de 2021 foram: Santarém, Prainha, Oriximiná e Mojuí dos Campos

 

As cidades com maior número de exploração sexual são: Faro, Almeirim e Terra Santa. A faixa etária das vítimas são dos 5 aos 12 anos e 83% são do sexo feminino. Estes números são assustadores e comprovam que houve um crescimento de mais casos que destroem vidas, famílias e infâncias, destacando as cidades de Santarém, Prainha e Oriximiná. 

 

Atenção aos sinais e como denunciar

 

Os cuidados têm como base conversar com a criança e ensinar que não é normal um adulto tocar no seu corpo (parte íntima), se algo acontecer deve contar para os pais, professores e vizinhos. Assim como ficar alerta a qualquer comportamento estranho da criança, como silêncio, medo e tristeza.

 

Como nos casos acima os abusadores geralmente são pessoas próximas às crianças e adolescentes, que usam de seu poder familiar ou econômico para se aproximar e abusar, desconfie de tudo e todos.

 

Aline dos Santos, Conselheira Tutelar 2 de Santarém, fala que: “então cabe a família ficar alerta a alguns sinais que essa criança ou adolescente apresenta no seu dia a dia. Geralmente são medos excessivos, ela reage com algumas atitudes, coisas que a criança fazia quando ela era bem pequena e do nada ela volta a fazer. Às vezes ela consegue externalizar através de desenhos ou através de alguma atitude sexual. Essas mudanças bruscas de comportamentos as famílias têm que ficar atentas. A essa criança, a esse adolescente e denúncia”.

 

Em caso de qualquer suspeita de uma situação de abuso ou exploração sexual de crianças e adolescentes, é possível realizar a denúncia por meio do Disque 100 ou de diversos canais oficiais de denúncia, tal como Polícia Militar (190), Polícia Rodoviária entre outros. Procure o Ministério Público do Estado do Pará (93-3512-0400), Conselho Tutelar, CREAS e CRAS. Se calar diante da situação também é um crime.

 

 

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