Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Contradição

Com baixa produção energética, painéis solares devem ser instalados em Belo Monte

“A gente alertou que Belo Monte não produziria uma quantidade satisfatória de energia, se quiserem botar a placa solar não vejo problema nenhum. O problema foi ter barrado o Xingu. Belo monte é um erro do começo ao fim!”

29/03/2022 às 14h04
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto de capa. Foto: Reprodução/O Globo
Foto de capa. Foto: Reprodução/O Globo

Concretizando o alerta feito por engenheiros, quando era apenas um projeto, da inviabilidade que seria a construção do Complexo de Belo Monte, no rio Xingu, região de Altamira, a concessionária Norte Energia, dona da Usina de Belo Monte, pretende construir um parque solar dentro da área da própria hidrelétrica para aumentar a produção energética.

 

A proposta é que seja instalado na área em que funcionava a vila dos operários. O projeto ainda está em fase de estudo, mas o plano é que a potência da planta solar possa chegar a 137,48 megawatts (MW), energia que seria suficiente para atender cerca de 300 mil pessoas.

 

As tentativas de incrementar a produção de energia estão diretamente associadas às limitações de produção de energia por Belo Monte, uma realidade que já era conhecida desde a concepção do projeto e que levou muitos engenheiros a questionarem, inclusive, a viabilidade financeira da usina.

Para viabilizar o leilão da hidrelétrica em 2010, o governo acionou a estatal Eletrobras, que detém 49,98% da concessionária, os fundos de pensão Petros, da Petrobras, e Funcef, da Caixa, que possuem 20% da usina. Os demais sócios são as empresas Neoenergia, Vale, Sinobras, Light, Cemig e JMalucelli. A concessionária vai explorar a hidrelétrica pelo prazo de 35 anos. 

Para Rodolfo Aureliano Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, que é professor adjunto III do curso de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira, “a energia solar é uma alternativa interessante", no entanto, ele questiona o porquê de somente agora ser pensado  em energia solar na região do Xingu.

“Agora querem fazer um parque de energia solar aqui na área. Ótimo! Mas devia ter feito antes. De fato, o que acontece é que Belo Monte nem deveria ter  existido se a energia solar é uma alternativa interessante”.

Salm desenvolve um projeto de recuperação das margens do rio Xingu por conta da destruição causada pelo barramento do rio. Em sua visão, não deveria ter sido “barrado o Xingu…a gente poderia estar explorando a energia solar já há muito tempo, então você não precisaria de Belo Monte”. O barramento trouxe “consequências ecológicas gravíssimas, consequências econômicas para nossa região na medida em que Altamira não mais pode explorar o turismo como como vinha fazendo e como poderia ter feito muito mais”. 

Ilhas submersas e árvores mortas no reservatório da barragem de Belo Monte. Os ribeirinhos costumavam povoar muitas dessas ilhas, que agora estão alagadas. Foto:  Vincent Elkaim/The Alexia Foundation.

O complexo de Belo Monte causou muita destruição socioambiental e a sua produção energética é baixa. “ A gente alertou que Belo Monte não produziria uma quantidade satisfatória de energia para justificar a implementação dessa usina, devido a alta sazonalidade pluviométrica, tem um período imenso do ano em que o Xingu praticamente não corre, fica praticamente parado e não gera energia. Mas aí construíram esse monstro aqui instalaram as linhas de transmissão e agora com que essas linhas estão paradas subutilizadas querem fazer esse parque de energia solar. Belo monte é um erro do começo ao fim”, disse o pesquisador.

 

“Belo deveria ser derrubada, destruída e o meio ambiente reconstituído. E se temos que investir em energia solar? Sim, temos. Mas não vejo nenhum motivo porque deveria ser aqui. Agora, se quiserem botar a placa solar aqui, também não vejo problema nenhum. O problema foi ter barrado o Xingu”, finaliza o ecólogo Rodolfo Aureliano Salm.

 

Rodolfo Aureliano Salm tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Especificamente, tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará. Foto: Acervo pessoal.

 

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