Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Ditadura

Golpe Militar: as consequências da Ditadura Militar no Brasil de 2022

“A sociedade foi humilhada pelo poder militar que criou a Ditadura, matou e exilou tantas pessoas, crianças sofreram, tiveram marcadas na sua memória pelo que aconteceu de 64 a 85”.

01/04/2022 às 15h01
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto reprodução
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Em 2022 completa 58 anos do início do Golpe Militar de 1964, que culminou com a retirada do presidente João Goulart do poder. "O processo pode ter começado no dia 31 de março, mas o regime vigorou  mesmo no dia 1° de abril", pontua Marcos Antônio Silva, professor de História da USP (Universidade de São Paulo).  O Regime Militar durou 26 anos, indo de 1964 a  1985.

 

O Tapajós de Fato ouviu Anselmo Colares, Doutor em Educação e Professor Titular da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e o padre  Edilberto Sena, figura importante do movimento social em Santarém. 

 

Edilberto fala que os militares “continuam insistindo em comemorar o Golpe de Estado, que eles chamam de Movimento Militar, não temos porque comemorar, já que ele foi um golpe de Estado que gerou a ditadura militar. A  sociedade que foi humilhada pelo poder militar que criou a ditadura, que matou tantas pessoas, que exilou tantas pessoas, crianças sofreram, tiveram marcadas na sua memória pelo que aconteceu de 64 a 85”.

 

Tratado pelos militares como movimento ou revolução, Anselmo Colares explica que essa narrativa foi utilizada “porque ela não tem um sentido tão ruim, tanto que se fala em Revolução de 30 aqui na história brasileira que corresponde ao período em que o Vargas chega ao poder e ocorrem várias modificações, algumas delas bastante significativas para o estado brasileiro, até para a sociedade brasileira. Então, a revolução aparece normalmente como algo bom. Enquanto que golpe e ditadura são sempre palavras marcadas por coisas muito ruins”. Para Colares, “não houve revolução, houve retrocesso”.

 

No momento em que o país sofreu o Golpe, os brasileiros lutavam por mais direitos, sociais e trabalhistas, lutavam pelo direito à terra, e a intervenção militar freou estas lutas. Dentro do processo de resistência ao sistema autoritário imposto, a igreja católica foi fundamental, serviam como ponto de encontro dos revolucionários para traçar estratégias para derrubada do militarismo. 

 

E a Amazônia?

O então inferno verde, como é chamada a Amazônia, passou a ter maior visibilidade por possuir riquezas  naturais e também pela possibilidade de instalação de grandes projetos e do agronegócio.



Anúncio sobre a ocupação da Amazônia/ década de 70/ Foto: Reprodução



“E na Amazônia, após 64, houve a intensificação do seu processo de ocupação da destruição de uma parte da nossa natureza. Da implantação dos grandes projetos que aparentemente trazem benefícios, só que quando se faz um estudo mais detalhado, a gente verifica que são poucos, e esses poucos nem sequer são da nossa região. Esses poucos são de outras regiões, de outros países, e uma parte é usufruída pelas altas estruturas de poder.”, explica Colares.



Padre Edilberto contribui explanando o lema “integrar para entregar”, que foi um discurso nacionalista adotado  no período da Ditadura Militar para ocupação e exploração da Amazônia e, “não entregá-la para os países europeus ou para o comunismo, nela os  os impactos graves que a Ditadura Militar causou foi entregar a Amazônia à capital. E eles falavam de integrar para não entregar, na realidade eles entregaram a Amazônia e não integraram. Fizeram o contrário!”, afirma Edilberto Sena.

 

“O governo iludiu os pobres que viviam lá no Sul e no Nordeste, oferecendo possibilidade, trouxeram para se instalar ao longo das rodovias que foi um um instrumento de amansar a floresta para depois os pobres ficarem desamparados e foram vendendo seus lotes, a maioria foi vendendo e foram surgindo as grandes fazendas na Amazônia. Isso é um dos impactos terríveis que a ditadura fez, além de massacrar também trabalhadores”.

 

O padre relembra que a cidade de Santarém também sofreu os impactos: "ela se tornou área de Segurança Nacional. Os militares ocuparam Santarém, o 8º Batalhão de Engenharia e Construção vieram para Santarém na época com a ideia de que era um batalhão das Forças Armadas que tinha como experiência a engenharia de construção e de fato contribuiu em parte para construção da da BR 163”. 

 

Edilberto critica a atuação do 8º BEC, “hoje, que a gente saiba não tem nenhum projeto de construção, porque até um trecho da BR da Transamazônica está inacabado e não asfaltado, enquanto o BEC está aqui, instalado, têm os seus salários, tem o seu bem-estar e não tem que se saiba nenhuma obra a serviço da população que faz”. 

 

A região do Tapajós teve as atividades de exploração ainda mais intensificadas e respaldadas pela Ditadura Militar,  “passou do garimpo artesanal ao garimpo de balsa que era mergulhando no rio e mais tarde vem evoluindo a destruição com as dragas hoje, mas o garimpo já existia, ele simplesmente teve o apoio da ditadura militar”, explica Edilberto  Sena. 

 

Atualmente, com Jair Bolsonaro na presidência, o incentivo  à mineração continua, o PL 191/2020 tenta liberar a mineração em terras indígenas, as discussões se intensificaram ainda mais com a guerra entre Rússia e Ucrânia, o governo diz que pode impactar na compra de fertilizantes para o agronegócio. 

 

E depois disso?

Anselmo Colares aponta que ainda há muitos resquícios do governo militar até hoje, “têm muitas leis que infelizmente mesmo após esse período ter sido alterado por uma outra fase democrática na nossa história. Porque a história do Brasil é sempre assim, tem um pedaço de democracia e vem um pedaço de não democracia, desde o começo e tem sempre um um momento de militares tomando poder depois uma certa saída deles, depois eles voltam”.

 

Outro ponto trazido por Colares é que o Brasil está entre os países mais ricos do mundo e também entre os mais desiguais. 


“Então isso pra mim enfraquece fortemente a democracia. Não pode haver uma democracia bem estruturada, uma democracia forte com uma desigualdade tão grande entre as pessoas. A distância entre ricos e pobres é maior quanto maior ela for, mais perigo para a democracia sobre todos os aspectos ela representa. Então isso é uma questão que tem que ser resolvida associada com a ideia de democracia”.

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