Quinta, 26 de Maio de 2022
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Indígena denuncia racismo durante a realização de concurso público, em Santarém

“Quero que todos saibam como me senti , e fazer com que eles aprendam a chegar nas pessoas para fazer o trabalho deles”.

11/04/2022 às 18h03 Atualizada em 18/04/2022 às 17h42
Por: Tapajós de Fato
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Foto que tirada antes de Daniele ir para o concurso. Foto: Acervo pessoal
Foto que tirada antes de Daniele ir para o concurso. Foto: Acervo pessoal

A vítima, Daniele Cardoso Arapiun, 27 anos,  artista que trabalha com grafismos em peças e dança como receptivos (carimbó tradicional e estilizado), conta que foi prestar concurso “do IBGE, para recenseador, pela parte da manhã, e à tarde, de ACS , na escola Rio Tapajós”. O caso ocorreu em Santarém, oeste do Pará, no último domingo (10). 

 

Segundo Daniele Arapiun, as situações ocorreram em dois momentos,pela manhã, logo quando chegou ao local da prova, sua identidade foi questionada pela pessoa que estava fazendo o processo de verificação de lista de presença. Ela fala  que “queriam me barrar por conta da minha carteira de trabalho ser antiga e eu está diferente da foto, pediram para tirar óculos, máscara e até a franja”.

 

Daniele Arapium relata que só teve autorização para adentrar à sala depois que  foi explicar a situação para a coordenadora geral, “disse que por não ter identidade tinha o BO [Boletim de Ocorrência]  de roubo, e ele só aceitaria se fosse impresso , não aceitaria foto e nem digital”.

 

Passado o primeiro momento, a jovem entrou na sala e percebeu que algumas pessoas dentro do ambiente pareciam estar desconfortáveis com sua presença, mas que se sentou iniciou a prova  e tudo seguiu. Entretanto, quando Daniele Arapiun foi responder a segunda prova, relacionada ao concurso de ACS de Santarém, “já tinha passado pouco mais de uma hora do início da prova, pediram que eu me retirasse da sala, fizeram o procedimento com detector de metal e mesmo eu perguntando o que houve, ninguém me respondeu nada”.

 

Daniele conta que  ficou sem entender o que estava acontecendo, pois antes de iniciar a prova ela havia passado pela revista e só perguntaram se “tinha chaves nos bolsos e confirmei que estavam vazios, desliguei o celular, mostrei para o mesário e coloquei no lacre. Antes disso acontecer, em momento algum pedi para ir ao banheiro na parte da tarde”. Ela fala também que não foi informada do porquê de uma nova revista, “parecia que estavam procurando algo”, conta.

 

“Voltei para fazer a prova, porém, como tenho ansiedade, entrei em crise e perdi totalmente o foco…  um dos fiscais entrou umas 3 vezes na porta e ficou me encarando, e todo mundo percebeu”.

 

Quando terminou a prova, Daniele saiu da sala e todos os fiscais ficaram olhando para ela, a jovem deu de  encontrou com um dos fiscais de prova que havia revistado, ela aproveitou para questioná-lo  pelo que ocorreu. Segundo a jovem, ele falou que se tratava de uma denúncia, “ele disse que houve uma denúncia, um dos rapazes que estava do meu lado ouviu um som de bip [som de aparelho eletrônico] vindo de mim”.

 

Foi aí que mais uma vez ela procurou a coordenadora geral, “pois não poderia deixar passar, fiquei um tempo esperando até a coordenadora geral se desocupar”. Daniele conta que perguntou para a coordenadora se o procedimento adotado era o “certo”, segundo Daniele, a coordenação falou que informaram errado, que não era uma denúncia, era uma suspeita, “então rebati que se houve suspeita é porquê houve denúncia…E que desde cedo que eles tentaram me atrapalhar nesse concurso”.

 

Dada as circunstâncias, a coordenadora tentou acalmá-la “ela elogiou meu brinco, ficou dizendo que foi só um procedimento nada demais. E que eu iria passar no concurso. Falou várias vezes que eu iria passar”.

 

Ao final da entrevista, Daniele Cardoso desabafou ao Tapajós de Fato, dizendo que:

“Quero que todos saibam como me senti , e fazer com que eles aprendam a chegar nas pessoas para fazer o trabalho deles. Tudo que aprendi estudando para o concurso que não posso fazer com as pessoas, fizeram comigo. Os danos não foram só morais, como psicológicos.

Sabe quando a pessoa não sabe mais nem o que falar porquê é uma vergonha nos dias de hoje a gente só querer ser tratado bem ? Pois é, tô saturada. Esse concurso nessa escola foi bagunçado e com pessoas despreparadas”.

 

Art. 20.   da Lei 9459 de 13 maio de 1997 aponta que: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa”.

 

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