Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Abril Indígena

19 de abril: dia de luta e resistência dos povos indígenas

A luta dos povos indígenas perpassa pela manutenção não só da vida dos seus, mas sim pela preservação da vida de toda a humanidade, e o 19 de abril é uma data importante para dar visibilidade a esta luta.

19/04/2022 às 14h01
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto: Tapajós de Fato
Foto: Tapajós de Fato

No dia 19 de abril comemora-se o dia do indígena, que no calendário e também nas falas populares, ainda é conhecido como ‘‘Dia do índio’’, reproduzindo um termo que, para os indígenas, é incorreto.

 

Segundo Daniel Munduruku, escritor e doutor em educação pela USP,  ‘‘existem dois conceitos no imaginário da sociedade brasileira intrínsecos a esta palavra: o olhar romântico, do ‘índio’ que vive no meio do mato, e o aspecto ideológico que considera que índios são preguiçosos e atrasam o progresso”.

 

A data, que parece ser apenas folclórica, tem sua origem em 1940 quando ocorreu o 1º Congresso Indigenista Interamericano, no México. O início do evento foi marcado por protestos de indígenas de diversas etnias, que tentaram interromper o congresso ao perceberem que suas demandas poderiam não ser ouvidas pelos organizadores. 

 

Um dos encaminhamentos do 1º Congresso Indigenista Interamericano foi a instituição do 19 de abril como ‘‘Dia do índio’’. O Brasil foi um dos últimos países a aderirem a este encaminhamento, o ‘dia do índio’ só foi inserido no calendário nacional em 1943 pelo então presidente da República Getúlio Vargas. Desde o Congresso que instituiu o ‘dia do índio’ percebemos que a data é marco de luta e resistência dos povos originários em todo o mundo. 

 

O Tapajós de Fato ouviu Raquel Tupinambá, mulher índigena, coordenadora do Conselho Indígena Tupinambá do Baixo Tapajós (CITUPI), que fala sobre a ligação do 19 de abril com a luta dos povos indígenas.

 

Raquel nos conta que a data é importante para conscientizar os não-indígenas sobre as lutas dos povos indígenas. ‘‘Hoje é 19 de abril, dia dos povos indígenas, não é uma data para a gente receber parabéns, mas é uma data que a gente convida toda a sociedade brasileira a refletir, a entender a nossa luta, a nossa causa, sobre a nossa história’’. 

Raquel também ressalta as ameaças que os povos indígenas do Brasil vêm sofrendo através dos desmontes políticos comandados pelo governo Bolsonaro, que além da existência dos povos indígenas, também ameaça seus territórios.

 

‘‘Nossos direitos estão sendo ameaçados , estão sendo atacados e retirados pelo Estado brasileiro, e nós lutamos pelas nossas vidas que estão muito atreladas a defesa do território, que o território é nossa casa, é de onde tiramos nosso sustento, de onde tiramos a cura da nossa vida, é onde a gente tem nossos locais sagrados, e por isso a gente luta por nossos territórios, pelo nosso modo de vida e pela nossa cultura’’.

 

A luta dos povos indígenas perpassa pela manutenção não só da vida dos seus, mas sim pela preservação da vida de toda a humanidade, e o 19 de abril é uma data importante para dar visibilidade a esta luta e também mostrar a todas e todos que as ameaças das quais os povos originários falam também pode influenciar negativamente a vida de não-indígenas. 

 

‘‘O dia 19 de abril é um dia para a gente dar visibilidade, enquanto indígenas, para a nossa luta, nossa história, e convidar os demais a conhecerem nossa realidade, conhecerem nossa história e participarem com a gente. A luta dos povos indígenas pelo nosso território não trás só vantagem para nós, mas sim para todos, porque nós precisamos das florestas, dos rios limpos para nos manter vivos, não só nós indígenas, mas todos os brasileiros, todos aqueles que precisam do ecossistema e do ciclo das águas’’, finaliza Raquel. 

 

‘Dia dos povos indígenas’

Em 2019, Joenia Wapichana (REDE/RR), a primeira deputada federal indígena, apresentou o Projeto de Lei 5466/2019, que anula a nomenclatura ‘Dia do índio’ e institui o ‘Dia dos povos indígenas’. O PL já foi aprovado nas comissões de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), Cultura (CCULT) e Constituição e Justiça (CCJ), o projeto agora espera a aprovação no Senado Federal. 

Na justificativa do projeto, a deputada diz que o termo ‘índio’ demonstra individualismo, algo que é contrário à contribuição coletiva dos povos indígenas para a diversidade cultural do Brasil. “Lembramos a particular contribuição dada pelos povos indígenas à diversidade cultural, à harmonia social e ecológica da humanidade. E consideramos importante frisar que a contribuição é ofertada pela coletividade e não pelo indivíduo isolado, como remete a ideia do termo ‘índio’’.

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