Quinta, 26 de Maio de 2022
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TCC de aluna indígena da Ufopa é publicado em livro com principais referências em gênero e saneamento no país

Estudos foram feitos por alunas do ICTA na aldeia Arapiranga, da etnia Arara Vermelha, e aponta o protagonismo da mulher indígena na tomada de decisão sobre recursos hídricos.

28/04/2022 às 14h43 Atualizada em 09/05/2022 às 14h46
Por: Tapajós de Fato Fonte: ASCOM Ufopa
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Foto reprodução
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Iniciar e finalizar uma pesquisa durante um período em que tudo se mostra mais complicado, com enfrentamento de diversos desafios por conta da pandemia, foi o que as estudantes Leilane Guimarães e Lucélia Figueira, do Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA) da Ufopa, fizeram em 2021. O objetivo foi caracterizar as relações de acesso à gestão da água na aldeia Arapiranga, no rio Arapiuns, considerando as perspectivas de gênero e variáveis da evolução das condições de saneamento e qualidade de vida.

Ainda durante o levantamento da pesquisa, Leilane Guimarães e sua colega Lucélia Figueira foram convidadas a escrever um capítulo para o livro Água e gênero: experiências e perspectivas, organizado pelos pesquisadores Fernanda Matos e Alexandre Carrieri, ambos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Achamos complicado e poderíamos não dar conta em curto período, de maio a agosto de 2021, para finalizar o TCC e ainda fazer o capítulo, mas graças a Deus e a ajuda do orientador e da coorientadora, conseguimos conciliar e fazer a entrega dos dois trabalhos”, lembra.

Em plena pandemia, Leilane Guimarães seguiu para a aldeia Arapiranga, no Rio Arapiuns, da qual é originária. O estudo chegou a uma conclusão que reforça o papel institucional da Ufopa em promover narrativas locais sobre temas vitais para a Amazônia. Além disso, a pesquisa gerou benefícios à própria comunidade, com levantamento de informações nunca antes analisadas, e aponta a importância do saneamento na elevação da qualidade de vida dos moradores, além do protagonismo da mulher indígena na tomada de decisão, para que as melhorias possam ocorrer.

Na conclusão, ficou comprovado que houve significativa melhoria na qualidade de vida, no quesito "acesso à água", uma vez que em 2012 o recurso era obtido diretamente do rio e/ou poço, e agora existe microssistema de abastecimento. O impacto foi significativo, em especial, na vida das mulheres da aldeia.

Leilane Guimarães explica que a ideia de incluir o tema na pesquisa do trabalho de conclusão de curso (TCC) partiu da expectativa de ver algum estudo que pudesse gerar impacto na comunidade onde mora. “Queria estudar algo relacionado à água, ao solo, abordando a história de onde vim, do convívio com meus parentes, da minha aldeia, das dificuldades enfrentadas e das mudanças que foram superadas ao longo do tempo”.

Ela assegura que uma atividade em sala de aula aplicada pelo professor João Paulo de Cortes, orientador da pesquisa, foi o que chamou a atenção para abordagem do tema e, também, lhe fez lançar o convite para que o professor pudesse orientá-la. “Em seguida, tivemos a informação que uma colega estava abordando um tema relacionado ao nosso, a Sabrina Santos da Costa, então a chamamos para conversar e a convidamos para coorientar o trabalho”, diz o professor.

As pesquisadoras focaram na busca pelas diferenças de percepção entre mulheres e homens e qual a opinião desse público sobre o uso da água na aldeia. As mulheres, em sua maioria, têm uma visão distinta sobre o uso da água, com maior noção, por exemplo, da distância que enfrentam para ter acesso, e das variações na qualidade. A pesquisa aponta que são elas que têm maior contato com a água, especialmente em relação aos usos doméstico e familiar.

Guimarães enfatiza que é muito importante quando são colocados tanto os homens quanto as mulheres no centro da pesquisa, de modo que as mulheres possam ter destaque e dar suas opiniões, possam ser ouvidas e atendidas. Segundo o Prof. João Paulo, o fato de o trabalho ser conduzido por uma estudante indígena em seu próprio território, além de abrir as portas para a pesquisa, ainda permite que as narrativas sejam recontadas a partir das perspectivas dos povos originários, o que tem um valor imensurável.

A coorientadora da pesquisa, Sabrina Santos da Costa, explica que em 2017, com o apoio do Projeto Saúde e Alegria, a aldeia Arapiranga foi beneficiada com microssistema de abastecimento de água movido a energia solar, o que representou melhora na qualidade de vida dos moradores, eliminando a necessidade de percorrerem distâncias para carregar água até as residências. “O recurso, desde essa época, vem direto na torneira. Isso, para as mulheres, significa mudança na qualidade de vida, pois elas desempenham funções diferentes dos homens, quando se trata de uso da água”.

Sabrina, que também tem raízes indígenas, destaca que os resultados apontam redução do número de habitantes em Arapiranga, entre 2012 e 2021. Segundo ela, o padrão indica aumento da conectividade da aldeia com a cidade, para onde a nova geração de filhos e netos tem migrado em busca de oportunidades de emprego e educação.

Ainda de acordo com a pesquisa, as mulheres atuam na organização e suporte coletivo nas demandas da aldeia, enquanto os homens desempenham funções no abastecimento de água, serviços de manutenção do gerador e limpezas de caixas d'água.

A coorientadora diz que no questionário da pesquisa também foi perguntado sobre como as sugestões das mulheres em relação à gestão da água são aceitas dentro da aldeia. “A visão dos homens é de que as sugestões de mulheres são bem aceitas, enquanto pela perspectiva das mulheres ainda há entraves neste aceite”. Estes dados abrem caminho para que tais questões sejam abordadas dentro da aldeia.

Relevância de participação no livro: Para o orientador do trabalho, professor Dr. João Paulo de Cortes, o fato de ter um capítulo publicado em um livro que traz as principais contribuições de estudos de gênero e saneamento no país, com grupo importante de pesquisadores, já é um fator de muita relevância, “partindo do princípio que a gente está inserindo a perspectiva de discentes que são do contexto". "A Leilane é indígena, a Sabrina também tem um histórico familiar de comunidades, então, esse olhar de dentro da comunidade é uma coisa que é nova e muito valiosa. É uma coisa que deve ser ressaltada”, enfatiza.

Outro ponto destacado pelo orientador diz respeito ao financiamento do projeto pelo Programa de Ações Emergenciais da Ufopa (Paem-Rios), que teve entre seus objetivos avaliar como as condições de saneamento nas comunidades influenciaram a resposta à pandemia, e às cooperações interinstitucionais, que permitiram o avanço da pesquisa.

Dados demográficos da comunidade, acessados graças à cooperação técnica com o Ministério Público Estadual do Pará (MPPA), e dados de campo, coletados em 2011 pelo Laboratório de investigação em Sistemas Socioambientais (LISS) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), permitiram que a perspectiva histórica fosse incluída no estudo. “A partir dos dados disponibilizados em função de nossa parceria com o LISS/INPE através das pesquisadoras Silvana Kempel e Ana Paula Dal’Asta, nós pudemos notar a evolução das condições de saneamento durante o período, em um processo que foi liderado dentro da comunidade pelo protagonismo feminino” afirma Cortes.

Protagonismo feminino: Os dados da pesquisa em Arapiranga deixam muito claro o protagonismo feminino e evidenciam a solução dos problemas de saneamento na aldeia, principal demanda na comunidade no ano de 2011. “Quando a pesquisa do Inpe foi realizada, a principal demanda da comunidade era a instalação do microssistema, e quando nós voltamos a campo, após a implantação do microssistema, observamos que, além da melhoria nas condições de vida, isso permitiu que a aldeia avançasse em suas demandas, que agora são a ampliação da escola".

A problemática de saneamento, segundo o professor Cortes, parte do princípio de que as mulheres têm perspectivas diferentes sobre o uso da água. Elas, normalmente, sentem antes os problemas com a água. “São elas que têm o contato para fazer comida, lavar roupa e têm percepção maior dessa falta e dos problemas que surgem a partir dela, como alterações na qualidade, por exemplo, enquanto os homens atuam numa parte da manutenção, da busca de suprimentos, de manter o sistema em níveis mais técnicos”, assegurou, acrescentando que “a percepção que vem deste trabalho é de que as mulheres têm capacidade de se envolver tanto na parte técnica quanto na gestão dos recursos”.

Ainda para o professor João Paulo de Cortes, “esta experiência mostra a importância da Ufopa em permitir que sejam construídas novas narrativas destas comunidades, partindo de dentro de cada uma, escritas pelas pessoas que vivem esta realidade. Então, dentro de uma perspectiva de construção de conhecimento, é de uma riqueza muito grande e fortalece o papel institucional da universidade”, finaliza.

Continuidade no projeto: Leilane Guimarães assegurou que pretende dar continuidade ao projeto de pesquisa, já que é um processo de aperfeiçoamento e amadurecimento sobre o assunto. Ela informou que os estudos foram bem aceitos pelos parentes, uma vez que se trata de uma novidade na aldeia.

Já a coorientadora, Sabrina Santos, reforça que a pesquisa foi elaborada em várias mãos e agradece a colaboração do Inpe, do MPPA, da Secretaria Municipal de Saúde de Santarém e da própria aldeia Arapiranga, por receber as pesquisadoras e contribuir com o fornecimento de dados.

O trabalho, publicado como capítulo do livro Água e gênero: experiências e perspectivas, está disponível AQUI.

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