Quinta, 26 de Maio de 2022
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Racismo ambiental é discutido na comunidade de Pérola do Maicá, em Santarém (PA), durante realização da 5° edição do Festival de Cinema das Periferias e Comunidades Tradicionais da Amazônia

A temática do racismo ambiental é o foco principal das narrativas construídas e protagonizadas pelos participantes, de jovens, pescadores, agricultoras a quilombolas moradores do Pérola do Maicá.

29/04/2022 às 15h18 Atualizada em 09/05/2022 às 14h45
Por: Tapajós de Fato Fonte: ASCOM Na Cuia
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ASCOM Na Cuia
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Racismo ambiental é discutido na comunidade de Pérola do Maicá, em Santarém (PA), durante formação e intercâmbio sobre cinema promovido pela 5° edição do Festival de Cinema das Periferias e Comunidades Tradicionais da Amazônia - Telas em Movimento, realizado pela Negritar Filmes e Produções em parceria com a Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá - AMBAPEM, Fase Programa Amazônia, Dzawi Filmes, Na Cuia Produtora Cultural e apoio do Instituto Clima e Sociedade. c

 

A temática do racismo ambiental é o foco principal das narrativas construídas e protagonizadas pelos participantes, de jovens, pescadores, agricultoras a quilombolas moradores do Pérola do Maicá, que trazem a partir do cinema a vivência de cada comunitário, as suas lutas e a importância do bairro para a sociedade, evidenciando como problemas ambientais afetam desproporcionalmente as populações negra, indígena e outras comunidades tradicionais, que sofrem mais com os efeitos da exploração predatória do meio ambiente. 

 

William Victor, 20, coordenador do projeto Encantos do Maicá - Turismo de Base Comunitária e participante da formação, relata sobre a sua relação com o território:

 

“O audiovisual pode buscar histórias das pessoas mais antigas do bairro e a juventude entender a importância de registrar as memórias do nosso território, não deixar pra trás! Eu quero que futuramente meus filhos saibam de onde eu vim, como foi minha forma de viver, o que eu apreciei na minha juventude que foi o bairro e o Lago Maicá e, algumas vezes, para desestressar, eu saía para pescar com os meus amigos. Então, eu quero passar a importância dessa relação para toda comunidade, o que não deixa de ser uma forma de se importar com a natureza e de se preocupar".

 

Situado em uma área periurbana do município de Santarém, no Oeste do Pará, o bairro Pérola do Maicá possui uma diversidade de moradores e identidades como quilombolas, indígenas, agricultores e agricultoras, pescadores e ribeirinhos que convivem numa dinâmica de vida que entende a natureza como fundamental para sua sobrevivência, destacando as diferentes atividades ligadas ao Lago do Maicá que é berçário natural de espécies únicas da fauna aquática e possui a presença de um importante patrimônio arqueológico, mas por outro lado enfrentam vários desafios de ausência do estado no cumprimento de políticas básicas como infraestrutura, educação e saúde, conforme salienta Yuri Rodrigues, 25, gestor público e educador popular da Fase Programa: “Essa ausência de políticas públicas favorece as estratégias do avanço de grandes empresas e projetos que tentam passar por cima da identidade e ancestralidade e do lugar que essas pessoas vivem, por entenderem a natureza e a vida das pessoas como mercadoria”.

 

Existe uma dinâmica portuária advinda da influência do agronegócio, na qual a região norte do país é vista como uma saída rentável para o escoamento de produtos brasileiros para o mercado internacional, o que preocupa principalmente as populações originárias e ribeirinhas, como é o caso do Lago do Maicá, onde a Empresa Brasileira de Portos em Santarém (Embraps) pretende construir o Terminal de Uso Privado (TUP), qual já foi sentenciado a condição de liberação somente mediante consulta prévia livre e informada  de povos quilombolas e indígenas residentes do território, que não foi cumprida conforme determinação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

 

Para Valdeci Oliveira, 55, moradora do bairro há 15 anos e há 2 anos está na função de presidenta da Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá - AMBAPEM, as melhorias de condições sociais da comunidade aconteceram diante de muita luta dos próprios comunitários e da ausência do poder público. “ A gente tem muitas carências e a luta dessa associação no decorrer desses 30 anos foi a partir dos próprios comunitários, uma luta muito árdua para conseguir iluminação pública, abertura de rua, etc. Isso pra mostrar de fato como a gestão pública é omissa às necessidades das comunidades e, principalmente, das organizações sociais, que é o que temos vivenciado, essa grande dificuldade que é dialogar com o poder público no sentido do cumprimento das políticas públicas que são direitos dos cidadãos, não é troca de votos e nem de favores, é exatamente direitos”

 

E complementa: “A Embraps chega nesse contexto de fazer a função do poder público. 'Se aceitassem a Embraps, ela ia asfaltar as ruas, ia ter escola, unidade básica de saúde'. A gente vê a inversão de papéis, já não é o estado fazendo acontecer, é o privado se sobrepondo ao público. É por isso que até hoje o bairro do Pérola do Maicá tem sido castigado pelas lideranças políticas da região, especificamente do nosso município, em relação ao cumprimento das nossas pautas”.

 

Frente a este cenário, a disputa de narrativas na esfera pública de debate por parte das juventudes, das populações quilombolas e indígenas, e ativistas que protagonizam a defesa

e a conservação dos territórios é fundamental para o fortalecimento do espaço cívico na Amazônia, além de possibilitar que a comunicação popular e o audiovisual possam ser utilizados como instrumentos de defesa e visibilização das potencialidades dos territórios, conforme explica Tayna Silva, 23, coordenadora de comunicação do festival e da Negritar Filmes e Produções, “A gente entende o cinema como essa ferramenta de impulsionamento das narrativas e vozes da própria comunidade e a gente retorna a Santarém para fortalecer ainda mais essa bandeira de que o cinema não é só o nosso lazer, ele é também o nosso fazer, a nossa denúncia”.

 

A formação em cinema conta com jovens que participaram da 4° edição do festival, realizada na Aldeia Vista Alegre do Capixauã, dentro da Resex Tapajós-Arapiuns, e na comunidade de Vila Brasil, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, como monitores e responsáveis por um intercâmbio entre os participantes do bairro Pérola do Maicá e os Guardiões do Bem Viver, coletivo de jovens que atuam no enfrentamento a mineração com incentivo da Fase Programa Amazônia, qual já possui um histórico de atuação na região objetivando unificar cada vez mais as lutas do campo e da floresta às lutas das periferias urbanas, que são interseccionais.

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