Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Lendas

A relação dos povos da Amazônia com as lendas

As lendas têm influência no modo de vida da população, trazem ainda o respeito com a natureza e fazem parte da identidade cultural de um povo.

10/05/2022 às 14h58 Atualizada em 16/05/2022 às 14h56
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto reprodução
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Lendas e estórias (narrativas de cunho popular), fazem parte da cultura dos povos, e ao longo dos anos, é comum que todos já tenham se deparado com as lendas, que passam de geração em geração. Esses contos fazem parte da construção da memória e da identidade cultural de um povo.

 

Na Amazônia, principalmente em cidades do interior, as lendas têm forte influência até mesmo no modo de vida da população e através dessas histórias, é possível estabelecer uma relação de respeito com a natureza e o meio no qual estão inseridos.

 

As lendas fazem parte da vivência de quem mora na Amazônia, por isso, o Tapajós de Fato ouviu o trabalhador rural Claudionor Sales, de 60 anos, morador de Monte Alegre, que relatou que durante sua infância e adolescência um tio já falecido reunia as crianças para contar histórias, entre as histórias contadas ele contava a história de “ - um certo homem que caçava todo dia de domingo, durante um domingo enquanto ia para a caça a esposa dele falou para ele não ir caçar, que domingo era dia de descanso, então o homem respondeu: domingo também era dia de comer. Até que certa vez apareceu o famoso Jurupari (personagem das lendas da Amazônia), quando o jurupari apareceu para o homem a cada pedaço dele que comia, Jurupari falava que domingo também se comia”. Claudionor relata que desde que ouviu essa história, contada pelo seu tio e gostar de caçar no interior onde vive, passou a respeitar os domingos, entende que a lenda traz consigo a lição do domingo como um dia de descanso.

 

Para Claudionor, “a geração atual perdeu a crença nas lendas, mas eu sou do período que sempre acreditou”, e diante disso ele sempre buscou o respeito pela natureza e repassou para seus filhos, que “antes de entrar na mata, nos rios é preciso pedir licença (...) pois a natureza é cheia de mistérios”.

 

A história dos personagens místicos da Amazônia se confundem com a história dos povos que nela residem, através dessas lendas é possível conhecer um pouco mais da relação do homem com a natureza e fazer a manutenção do saber popular.

 

O Tapajós de Fato entrevistou o professor Itamar Rodrigues, que estuda povos tradicionais, quilombolas e ribeirinhos, e fez um resgate sobre o folclore e a cultura dos povos da Amazônia.

 

De acordo com o professor, “o folclore é o conhecimento total que um povo tem sobre si mesmo, seu mundo, suas relações com a natureza”, enquanto a cultura “é a manifestação prática desse conhecimento (...) que pode ser manifestada através da música, dança, festas populares e festivais folclóricos".

 

Para Itamar Rodrigues, no norte, região sustentada pelo bioma amazônico, interfere na vida das pessoas, fazendo com que as mesmas desenvolvam seus modos de vida a partir do convívio com a floresta, e essas práticas culturais estão vinculadas ao conhecimento popular, cujo valor é de sustentar a importância dessas manifestações, ainda de acordo com o professor, a diversidade cultural na Amazônia é uma característica fundamental e deve ser reconhecida, incentivada e protegida.

 

Segundo Itamar Rodrigues, as manifestações culturais na Amazônia são diferentes e por vezes divergentes e, são essas manifestações que ganham significados à medida que seus agentes vivenciam, subvertem e transformam suas experiências cotidianas.

 

Na Amazônia, há exemplos de manifestações culturais de diversas formas que remontam a um passado que percebia a natureza como lugar mítico e sagrado, a exemplo da lenda do Muiraquitã, amuleto oferecido como presente pelas guerreiras nativas Konduris - que a literatura chama de Icamiabas, o amuleto era dado pelas indígenas aos indígenas guerreiros, na região do rio Nhamundá, entre os estados do Amazonas e Pará.

 

As histórias também resgatam a lenda da Caapora, também chamada de Curupira, duende protetor da floresta, que pune caçadores que matam os bichos por puro prazer. O Curupira é uma espécie de espírito da floresta, que cuida genialmente de manter a floresta intacta e reage a toda e qualquer maldade humana, segundo o professor.

 

Na Amazônia encontram-se diversos festejos culturais que dão identidade cultural à região, como o Festribal de Juruti - PA, o festival dos botos no município de Santarém - PA, o festival dos bois em Parintins - AM. Todos esses festivais são alimentados pelas lendas da região Amazônica, de acordo com o professor Dr. Itamar Rodrigues.

 

 

Das lendas encontradas na Amazônia, destacam-se algumas que fazem parte do resgate e da memória cultural dos povos, as histórias que a maioria ouviu de alguém mais velho ou na escola quando era criança.

 

A lenda da Vitória-régia que retrata o amor entre Naia e Jaci, a lenda da Matinta Pereira, que retrata a história de uma senhora idosa que a sabedoria popular costuma afirmar ser uma Bruxa que durante a noite se transforma em um pássaro agourento. Entre as lendas, a lenda do Boto não pode ser esquecida, talvez essa seja a lenda mais contada por moradores da região Amazônica, principalmente para quem vem de fora, a lenda do Boto diz que ele sai do rio durante a noite e encanta a mulher solteira, que depois aparecerá grávida.

As lendas da Amazônia recentemente tiveram uma grande produção cinematográfica através da série Cidade Invisível, na Netflix, que fez alusão aos saberes populares brasileiros, manifestados fortemente nas práticas culturais amazônicas, onde contou com personagens que são conhecidos na cultura popular, como o Curupira, a Iara, o Boto, Saci-pererê, a Cuca, Matinta Pereira, entre outros.

 

A conservação da memória cultural através das lendas, estórias, festivais folclóricos e apresentações culturais, reforçam a importância do imaginário popular, do respeito pela ancestralidade e vivência dos povos que residem na Amazônia.

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