Quinta, 26 de Maio de 2022
Reportagem Especial Resistência

Povos Indígenas do Baixo Tapajós ocupam SESAI contra demissão de enfermeiro e má gestão da saúde pelo atual coordenador

A ocupação do polo da SESAI em Santarém ocorreu nos dias 12 e 13 de maio, onde indígenas do Baixo Tapajós protestam contra demissões, falta de diálogo com coordenador e cobram melhorias na saúde.

13/05/2022 às 19h08
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Compartilhe:
Foto: Tapajós de Fato
Foto: Tapajós de Fato

Desde a tarde de quinta-feira, 12 de maio, indígenas da região do Baixo Tapajós ocuparam a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), em busca de respostas sobre a demissão do enfermeiro Cleberson, que atuava na região do Arapiuns. Além da demissão, lideranças denunciam o descaso do atual coordenador da secretaria.

 

Durante a ocupação da SESAI, participaram do ato o procurador do Ministério Público Federal, funcionários que estavam no local e o movimento indígena do Baixo Tapajós. Os participantes do ato mostraram-se indignados com o estado físico que o Polo de Saúde se encontra, com diversos equipamentos entulhados. Ao longo das falas na ocupação, foram feitas denúncias contra o coordenador sobre de assédio moral e sexual, também foi denunciada a falta de condições de trabalhos que os servidores enfrentam para prestar serviços, como o caso da lancha que era utilizada para o deslocamento até aldeias e que acabou explodindo pouco depois que os servidores usaram o transporte, podendo ter culminado na morte dos mesmos.

 

O Tapajós de Fato esteve na ocupação para ouvir o grupo que estava presente no local, funcionários e o procurador do Ministério Público Federal (MPF).

 

Anderson Tapuia, coordenador executivo do CITA (Conselho Indígena do Tapajós), explicou que desde o início da pandemia eles vêm tendo uma série de problemas com a SESAI, polo Santarém, que faz atendimento a onze povos do Baixo Tapajós. Anderson alega que: “desde o período da pandemia, várias decisões foram tomadas e não éramos consultados, acerca das decisões (...)”. 

 

O coordenador executivo do CITA acredita também que a demissão do enfermeiro foi uma retaliação por reclamações em relação às condições de trabalho, e ressalta ainda que o enfermeiro tinha boa atuação e trabalhava de forma humanizada à saúde indígena,  por isso, o movimento exigia a presença do coordenador da SESAI, que na quinta-feira (12), encontrava-se em Belém. Anderson afirma ainda que a relação com o atual coordenador é bastante conturbada.

 

O Tapajós de Fato ouviu também o enfermeiro Cleberson, profissional que soube de sua demissão de forma informal. Segundo ele, o documento de sua demissão já estava presente no polo quando o mesmo chegou, sem justificativa aparente, a partir de então, o enfermeiro conversou com lideranças do Baixo Tapajós, onde questionou se havia cometido algum erro durante o exercício do seu trabalho, e a resposta por parte das lideranças era de que o mesmo não havia cometido erros, e que lutariam para reverter a situação. 

 

Durante a entrevista, o enfermeiro alega que sofreu uma retaliação, pois o coordenador já havia deixado “claro” que a presença do profissional de saúde o incomodava, diante disso, outras tentativas de demissão aconteceram, mas até então nunca haviam sido consolidadas. Cleberson atua há 9 anos e 6 meses na saúde indígena, já foi responsável técnico e, atualmente atuava como enfermeiro assistencialista, segundo o mesmo, já passou por várias gestões e nunca teve problemas.

 

O procurador da República, Gustavo Alcântara, que foi convidado para estar no local e ouvir as demandas do movimento, conversou com a equipe do Tapajós de Fato. Ele ressalta que “o MPF acompanha diversas denúncias de insatisfação em relação a irregularidade e adequação dos serviços de saúde prestados, do Baixo Amazonas”, diante disso existe uma ação civil pública, que obriga a união a instalar de forma efetiva o sistema de saúde indígena, através da SESAI, no Baixo Tapajós. O procurador relata ainda que recebe algumas denúncias a respeito das embarcações, o problema de transporte de saúde com os indígenas, e uma delicada estrutura física, por isso, o MPF estaria presente para ver a situação e também para ouvir as demandas. 

 

A ocupação da SESAI se estendeu até hoje, 13 de maio, onde contou então com a presença do coordenador da DSEI GUATOC, Stanney Everton Nunes, que chegou de Belém e se encaminhou para o local. Durante as conversas na ocupação, o coordenador, o movimento indígena, o MPF e funcionários entraram em acordos para a criação de um grupo de trabalho conjunto buscando melhorar o diálogo.

 

O Tapajós de Fato conversou com Stanney Nunes, que se defendeu das denúncias. Em entrevista o coordenador nega que há má administração, alega que existem problemas a serem resolvidos, diante disso, “foi discutido com o controle social, com as lideranças indígenas, que estavam presentes, e ficou pactuado junto ao DSEI e equipes multidisciplinares, Ministério Público, um grupo de trabalho para acompanhar todas as demandas a partir de agosto”. Para o coordenador, muita coisa precisa ser resolvida, porém, o mesmo ressalta que muito já foi feito desde 2017.

 

Em relação a demissão do enfermeiro, que acabou sendo revogada hoje (13), sendo o estopim para a ocupação da SESAI, o coordenador explica que: “a demissão é feita a partir de uma avaliação do trabalho do profissional, uma avaliação técnica local é encaminhada e a gente avalia, aí decide se mantém ou descarta”, porém, com tudo que aconteceu e o que ficou pactuado entre as partes, apenas em agosto vai ser reavaliado todos e quaisquer profissionais.

 

Após pressão do movimento indígena, o enfermeiro Cleberson teve sua demissão revogada.

 

Sobre as denúncias acerca das condições precárias de trabalho e a lancha que acabou explodindo, o coordenador explicou que o trabalho vem evoluindo, agora eles contam com uma estrutura de transporte aéreo (helicópteros) e as embarcações. “O incidente que aconteceu com a ambulancha, aconteceu, mas graças a Deus, não teve nenhum problema físico com nenhum trabalhador, a gente fica triste e está apurando, e fazendo o encaminhamento do fato”, desta forma, segundo o coordenador a equipe vem tentando resolver os problemas e demandas apresentadas.

 

Após as falas de lideranças e da equipe que estavam na SESAI, parte do movimento e do corpo técnico dirigiu-se até o cais do Mapiri para averiguar a situação das embarcações que fazem parte do serviço de saúde indígena.

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.