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Gênero e Sexualidade Reportagem

Transição capilar: resistência e liberdade para assumir a própria identidade

Uma história de luta e aceitação de quem assumiu seu black power.

14/08/2020 19h33 Atualizada há 5 meses
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Transição capilar: resistência e liberdade para assumir a própria identidade

 

Historicamente as mulheres enfrentam GRANDES BATALHAS no seu dia a dia, que aos olhos dos homens e até mesmo de outras mulheres, são vistas como algo comum ou que não possui tanta importância assim. Uma dessas batalhas a serem travadas está ligada aos padrões de beleza impostos pela sociedade, onde para serem aceitas, devem seguir à risca o que muitas vezes está estampado nas capas de revistas ou em posts nas redes sociais.

Para ser considerada uma "mulher bonita", muitas vezes, o padrão é ser magra, pele perfeita, dentes certos, sempre estar “bem vestida”, se comportar como “mocinha”, e ter cabelos lisos. Não bastasse todo machismo e violência com seus corpos, o patriarcado ainda tenta ditar como uma mulher deve “ser”.

E em meio a essa ditadura de padrões, as mulheres negras são as que mais sofrem com a descaracterização da sua própria identidade, pois para serem aceitas, vistas e ouvidas em muitos lugares, elas têm que abrir mão de muitas coisas, uma delas é o próprio cabelo. O alisamento para as que possuem cabelos crespos ou enrolados, é muitas vezes imposto como uma das únicas saídas para fazerem parte ou serem incluídas em determinado local ou grupo, algumas não se rendem, mas a maioria encontra no procedimento uma opção para obter a aceitação dos outros.

De forma inconsciente e até mesmo por se sentir forçada, a professora de música, Maria Nancy Teles, viu no alisamento uma forma de fugir dos julgamentos por conta do cabelo. Filha de pai e mãe negros, assumir seu black power nunca foi um problema para ela, pois em sua infância na cidade de Jacareacanga, sua família sempre conviveu sem precisar conversar sobre o preconceito contra os cabelos afros, afinal todos ali aceitavam a si mesmos e isso jamais seria mudado.

Mas todo esse empoderamento começou a ser destruído em sua fase adulta, ela e sua família mudaram-se para Santarém e aqui ela iniciou sua graduação em música, e no período de conclusão do curso a maioria das pessoas optam por fazerem sessões de fotos para guardarem para sempre o registro daquela fase tão importante em suas vidas, e foi nesse momento que Nancy começou a sofrer com a reprovação por conta de seu visual.

Ouvir que para tirar fotos ela precisava estar “mais arrumadinha”, e isso significava ter cabelos lisos, foi uma das situações mais duras pela qual Nancy teve que passar. “Então eu me vi a ter de alisar meu cabelo, mas me sentia agredida e agredindo meu corpo, nunca gostei de alisar meu cabelo, sempre achei lindo o black power, o cabelo afro”, lembra ela ao relatar esse momento de constrangimento vindo de pessoas próximas.

E mesmo sabendo que não se sentiria bem, ela se submeteu ao processo e procurou um salão para alisar seu cabelo, e assim foi para a sessão de fotos e viveu por muito tempo refém da aprovação alheia. Ao longo do período em que passou fazendo procedimentos, ela até pensou em dar um basta nessa alto agressão, mas em uma conversa informal com uma pessoa na cidade em que iria trabalhar ela revelou sua vontade, mas para sua surpresa e tristeza, essa pessoa em tom de desaprovação a questionou “Nancy, você vai usar aquele cabelo? ”. E seguiu a aconselhando em não fazer a transição, pois por ser uma professora não seria legal usar tal visual, e para se manter e ser aceita no trabalho, Nancy mais uma vez continuou com os processos de alisamento.

A transição

Após 10 anos de química, chegou um período em que os cabelos de Nancy não suportaram mais tantas idas ao salão, e começaram a cair. Foi então que ela decidiu enfim se livrar das amarras que o alisamento a prendia, e resolveu iniciar a transição. Com o apoio de uma de suas sobrinhas, ela foi até um salão especialista em cabelos afros e deu o primeiro passo para reavivar o empoderamento do seu black power.

“Mas é claro que não foi fácil, você ter uma identidade feminina não é fácil, e essa identidade de mulher negra é mais dificultoso ainda, e eu fiquei relutando dentro de mim. Poxa, eu iria ficar com o cabelo curtinho, mas eu precisava”, relembra emocionada ao contar sobre sua decisão.

Apesar de ter passado por um conflito interno, ela não voltou atrás e seguiu para o salão escolhido, e ao finalizar todo o corte ela sentiu uma das melhores sensações de sua vida. “Me senti livre, me senti liberta de todos esses padrões que a sociedade coloca, em ter cabelos lisos e compridos. Ali a Nancy voltou, como quando era criança, me sentindo de fato a pessoa que eu sou”.

Aceitação própria

Após sua transição, ela sentia que ainda possuía muitas coisas a enfrentar, uma delas era a aceitação própria, pois há muitos anos se olhava no espelho e via os cabelos lisos, mas agora era diferente, eles estavam curtos e naturais. Para lidar com essa fase, ela procurou cuidar de seu psicológico, pois ainda se preocupava com o que os outros iam pensar a respeito dela e sua escolha. “Não era fácil, mesmo me sentindo livre, usava outros mecanismos para tentar me colocar como ‘mais feminina’, usando outros utensílios para esse processo”.

Mas ela passou por tudo isso e a cada dia que passava via seu cabelo black tomando forma, e se sentia cada vez mais empoderada. Apesar de não viver mais a partir do que o outro opinava sobre seu cabelo, ela passou a ter quer combater o racismo que sofria por ter assumido ele, em uma de suas aulas um aluno pediu que ela retirasse “seu cabelo de bombril” da frente do quadro, pois estava atrapalhando. “Geralmente aqui e ali a gente escuta um ‘seu cabelo é difícil de pentear, né’, e são essas ‘coisinhas’ que geralmente a sociedade sempre vai impor a respeito do cabelo afro”.

Uma sobe e puxa a outra

Nancy ainda vê a sociedade julgando como “modismo” a aceitação dos cabelos afros pelas mulheres negras, e defende que as mulheres devem se amar do jeito que são e fugir dos padrões impostos. Ela acredita que uma mulher que assume sua identidade, principalmente através do cabelo, pode incentivar outra a se empoderar e seguir o mesmo caminho, como aconteceu em sua família.

“Foi assim dentro da minha casa, minha sobrinha foi a primeira a assumir o cabelo e foi incentivando as outras, como eu e minha irmã. E de fato, quando a gente se aceita e se ama, é como se fosse uma luz que vai se espalhando”, afirma ela com muito orgulho da decisão de todas em sua casa.

 “Se você tem ainda essa prisão diante da sociedade, sobre o que vão pensar, você tem que acreditar em você e se aceitar. Ame seu cabelo! O cabelo afro não tem menor valor que outro, somos lindos e diferentes sim, mas cada um com sua beleza. Não é fácil a transição, mas você tem que se amar todo tempo”, é a mensagem que ela deixa para todos e todas a partir de sua trajetória de luta e resistência de mulher negra.

Durante muito tempo, Nancy viveu forçada a não se aceitar e a manter seu cabelo de acordo com o que a sociedade dita como "correto", mas apesar de ter sofrido muito, hoje ela é feliz com suas escolhas e com seu lindo cabelo black power, que também é um símbolo da sua resistência. E no fim o que importa são as escolhas individuais de cada um e uma sobre si, independente se optem por cabelos lisos, enrolados, crespos ou até mesmo careca, desde que essa decisão seja feita pela própria pessoa e ela se sinta feliz assim.

 

 

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