Sexta, 19 de Julho de 2024
Amazônia Crime Ambiental

Comunidade de Jauari, no PAE Juruti Velho, continua sofrendo com impactos ambientais causados pela Alcoa, e estudos realizados não valorizam os modos de vida dos comunitários

Quase 2 anos após o crime ambiental, a mineradora demora com a finalização dos estudos e continua a exploração na área.

29/08/2022 às 15h03 Atualizada em 04/10/2022 às 14h06
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Foto do dia seguinte a tragédia em Jauari / Foto: arquivo pessoal
Foto do dia seguinte a tragédia em Jauari / Foto: arquivo pessoal

No dia 26 de dezembro de 2020, em Jauari, comunidade da região de Juruti Velho, que fica 55km do município de Juruti, aconteceu, devido a chuva intensa, um deslizamento que causou a destruição do igarapé que abastece as comunidades da região. Porém, essa “simples” erosão que se passou por acidente, foi na verdade um crime ambiental causado pela mineradora Alcoa, que utiliza da área para a extração de bauxita.

 

                         Foto Tapajós de Fato

 

A mineração em Juruti não cumpriu os acordos e se baseia em seu estudo de perdas e danos, não respeitando acordos feitos pelos próprios comunitários da comunidade de Jauari, no projeto de Assentamento Agroextrativista PAE Juruti Velho.

 

Um deslizamento de uma proteção de um platô da frente 25, onde a mineração estava extraindo bauxita, aconteceu no dia 25 de dezembro de 2020, no período da noite, enquanto os comunitários faziam suas ceias de natal, no outro dia os comunitários foram até a cabeceira do igarapé de Jauari, e chegando perceberam a mudança da água, a cor estava vermelha. Água que antes era cristalina, hoje barrenta.

 

                        Foto Tapajós de Fato




A equipe do Tapajós de Fato acompanha o caso desde o início, e voltou à comunidade de Jauari, no mês de julho, e pôde ver novamente que muita coisa não mudou, tanto de impactos ambientais, como impactos sociais.

 

No local onde desceu a lama, a Alcoa fez um trabalho colocando algumas barreiras de proteção, mas o que a equipe do TdF presenciou é que a lama continua descendo para o igarapé, e isso é mais frequente quando chove, pois as barreiras não conseguem deter a descida dos sedimentos.

 

              Foto Tapajós de Fato

 

Em 2020, logo após o rompimento da frente 25, nossa equipe foi até o local, e por onde a lama desceu às árvores ainda estavam com suas folhas verdes e vivas, hoje com mais de um ano do desastre ambiental, observa-se que por onde a lama passou e continua passando, às árvores estão mortas e sem folhas, outro impacto é o mau cheiro que está vindo da lama, percebidos pelos comunitários.

 

                           Foto Tapajós de Fato

 

O Tapajós de Fato conversou com Alciberto, morador de Jauari, que relata.

 

“Estamos com quase 2 anos já convivendo com esse desastre e a mineradora continua a negar que isso não tá causando impacto, muito pelo contrário, no rio que a gente tomava nosso banho, a gente já tem medo de entrar nele porque a água está causando feridas e coceiras, e isso já aconteceu com muita gente aqui da nossa comunidade”.

 

Ele continua relatando que, “lá onde ainda tá a lama a gente sente um mal cheiro horrível, nós acreditamos que são produtos tóxicos que têm lá e por isso tá o mau cheiro. Nossas reuniões de negociação aconteciam aqui mesmo na nossa comunidade, mas agora eles começaram a dizer que não podem mais realizar reunião aqui, porque os comunitários estão muito violentos nas suas falas, violentos, mas é pelos nossos direitos e pela reparação do nosso território”.

 

A própria mineradora procurou fazer um estudo de impactos causado pela própria multinacional, neste estudo é possível saber quanto de lama que desceu para a cabeceira do igarapé, sobre isso Alciberto comentou.

 

“Pelos estudos, foi calculado mais de 100 mil toneladas de argila que desceu para o igarapé, isso só em uma noite, e como foi uma noite de chuva, isso ajudou ainda mais a lama a descer essas 100 mil toneladas, está no próprio estudo feito pela mineração”, disse o comunitário.

 

                          Foto Tapajós de Fato

 

Desde o momento que aconteceu esse acidente, os moradores começaram uma mobilização local para que a mineradora paga-se os danos causados ao rio, a floresta e a biodiversidade, foi nesse momento que os comunitários paralisaram as operações no platô da frente 25, impedindo que continuasse a exploração de minério naquele local. Com 2 dias após o ocorrido, a mineradora começou a distribuir garrafas de água potável e uma cesta de alimentos para cada família, isso mensalmente.

 

Nesse período a equipe do Tapajós de Fato foi até a comunidade, e o cenário em que se encontravam era entristecedor, pois vários garrafões de água podiam ser vistos de longe, em um local que antes era rico de água para consumo dos comunitários. Outro ponto também alterado nos modos de vida deles foi a alimentação, pois por receberem cesta básica por não ter o que pescar e caçar, acabavam tendo que comer produtos industrializados da cesta. Inclusive a cesta não durava mais que 15 dias, e no dia da ida da equipe na comunidade, uma moradora só tinha feijão para comer, pois a cesta não durava muito tempo, e pescar e caçar era impossível. 

 

A Comunidade também solicitou da empresa a ampliação do sistema de abastecimento de água, e aí a empresa então parou de fornecer a água potável, ficando para os comunitários usar a água do poço artesiano, sobre isso Alciberto comentou.

 

“A empresa já levou água daqui do poço para fazer um estudo e trouxeram o resultado dizendo que a água do poço artesiano não está contaminada, mas aí essa água tem causado diarreia nas nossas crianças”.

 

Atendendo o pedido dos comunitários, eles anteciparam um valor de 6 salários mínimos, durante cinco meses por família, outro acordo que fizeram foi a realização de um estudo com técnicos para verificar a água e o solo. Essa antecipação durante cinco meses era até chegar o estudo, mas após os cinco meses o estudo não chegou na comunidade, com isso os comunitários paralisam os trabalhos da mineradora por 5 dias na frente 25.

 

|A empresa voltou novamente à comunidade para negociar, foi acordado entre a empresa e a comunidade mais uma antecipação de 4 salário mínimos, foi pago  durante 8 meses até o estudo final chegasse com os valores, após os 8 meses o estudo não chegou. E só veio chegar em abril deste ano, e ainda sem condizer com a realidade da comunidade.

 

O morador relatar que, “ foram feitos esses dois acordos, até que o estudo final chegasse e não chegou, esse estudo deveria ter chegado em dezembro de 2021, depois eles falaram que chegaria em março de 2022, esse estudo chegou já em abril deste ano, mas simplesmente um estudo sem sentido, um estudo com muitas falhas”.

 

Outro acordo que foi feito com a multinacional, era fazer um diagnóstico com cada família para ouvir como cada comunitário está sendo impactado pela empresa, a empresa contratada foi a Pau Brasil, para fazer essa avaliação, e cada comunitário colocou seus sentimentos e suas perdas, porém eles não valorizam a fala dos comunitários dentro do estudo apresentado.

 

O morador Alciberto relata sobre esse estudo, “nesse estudo que eles apresentaram, deram um preço no nosso peixe muito baixo, eles não valorizam nossas caças, nossos peixes que já foram perdidos com a chegada da mineração, nós só queremos justiça, pois nossos peixes, caças, floresta, nosso igarapé e nosso rio, não tem preço, não tem dinheiro que pague”. 

 

A exploração da Bauxita em Juruti Velho acontece desde o ano de 2009, com apoio de moradores da cidade que usavam nas ruas a camisa 100% ALCOA, e com o apoio da atual gestão do município a mineração se instalou nas proximidades das comunidades com sua base em Capiranga.

 

 

Aos moradores da comunidade Jauari, só resta lamentar o acontecido e tentar de alguma forma se reestruturar. Porém, uma coisa é certa, o que eles perderam nunca será reavido, um igarapé que era a alma de várias comunidades, e que foi destruído para que grandes empresários mantenham suas riquezas às custas de populações que têm o total direito de viverem suas vidas e sua culturas, e passaram isso de geração em geração.

 

A equipe do Tapajós de Fato esteve na região de Juruti Velho desde o início do ocorrido, e acompanhou de perto as vítimas desse crime ambiental, resultando em materiais como podcasts, textos e documentário. Seguiremos acompanhando os próximos passos dessa história.

 

Saiba mais sobre a tragédia na comunidade Jauari através dos nossos conteúdos já publicados.

 

TEXTOS

https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/167/rompimento-em-mineradora-causa-destruicao-em-igarape-de-juriti-velho 

 

https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/176/comunidade-jauari-no-municipio-de-juruti-continua-sofrendo-impactos-da-mineracao-sem-entrar-em-acordo-com-a-alcoa 

 

https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/346/moradores-da-comunidade-jauari-em-juruti-paralisam-as-atividades-de-extracao-de-bauxita-da-alcoa-na-manha-desta-sexta-feira-23 

 

DOCUMENTÁRIO

https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/690/tapajos-de-fato-e-parceiros-lancam-documentario-o-preco-da-bauxita 

 

PODCAST

1ºep https://open.spotify.com/episode/0n9GtovnuEpSR9x4w8EkpE?si=hrlA8b5CQSKKX1Wb7OKypQ&utm_source=copy-link 

2ºep 

https://open.spotify.com/episode/65Q3jubvPY8cTBJcPuEtQX?si=oi3I5ZskSo2Na39y33hB3w&utm_source=copy-link

3ºep https://open.spotify.com/episode/1naiOjdAbS99EKIOs1Ebk1?si=u15AiQGRQo-_RUsnL1V7-A&utm_source=copy-link

 

Após a publicação desta reportagem, a empresa Alcoa procurou o Tapajós de Fato, e, em nota, afirma que "o incidente não tem relação com as operações do sistema de rejeitos da Alcoa", mesmos com todos os indícios e falas apresentados pelos moradores.

Leia a nota na íntegra:

“A Alcoa vem recebendo novos questionamentos sobre o incidente na comunidade do Jauari e novamente buscamos esclarecer o ocorrido. Em dezembro de 2020, devido às fortes chuvas na região de Juruti Velho, foram carreados somente materiais orgânicos (galhos e terra) para apenas um igarapé da comunidade. Vale destacar que o incidente não tem relação com as operações do sistema de rejeitos da Alcoa, estes que não contém materiais químicos ou tóxicos. 

 

Como medida emergencial, à época, a Alcoa fez a estabilização da área atingida de imediato. Na sequência, com a participação da própria comunidade, fez a colocação de manta geotêxtil, paliçadas (estacas de varas) e a revegetação com espécies nativas, para promover o recobrimento do local. Seguimos, como de costume, com monitoramentos permanentes nas áreas.

A Alcoa vem realizando uma série de diálogos com a comunidade de Jauari, buscando ações mitigatórias para os impactos ambientais destes incidentes. Dentre estas, está o Plano de Recuperação da Área Degradada (PRAD), que conta com a participação ativa da comunidade. 

 

Além disso, também foi elaborado um plano de compensação socioambiental, que tem por objetivo diminuir os impactos causados na ocasião. Ele é baseado em estudos e análises de impacto ambiental conduzidos em conjunto com a comunidade e Alcoa, com supervisão da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) e Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) no diálogo com os moradores.

 

A empresa também contratou estudos independentes de avaliação socioambiental, que contaram com a participação dos comunitários e que nortearam as ações de reparação e indenizações para a comunidade. Este também passa pela avaliação e aprovação da Semas e MP. 

 

Por fim, a Alcoa Juruti esclarece que não participou de reunião no dia 28 de julho deste ano envolvendo os órgãos e entidades citadas e, tampouco, tomou conhecimento dos assuntos tratados, mas ressalta que permanece aberta ao diálogo com a comunidade, poder público e instituições como sempre esteve durante todo o processo de atenção ao incidente ocorrido em 2020”.

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