Sábado, 15 de Junho de 2024
Amazônia Clima

Como invernos mais longos impactam diretamente a economia das populações amazônidas

O Tapajós de Fato entrevistou uma família da região do planalto santareno que, nos últimos dois anos, tem tido prejuízos consideráveis por conta dos períodos mais longos de chuva.

04/11/2022 às 11h33 Atualizada em 16/12/2022 às 17h07
Por: João Serra Fonte: Tapajós de Fato
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Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

O dia-a-dia na Amazônia é ditado pelo fluxo das águas dos milhares de rios que compõem a Bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, tendo mais de 7 milhões de Km², ocupando boa parte dos territórios do Brasil, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Além do mais, a bacia amazônica é responsável por guardar 20% de toda a água doce do planeta.

 

A peculiaridade de viver sobre o vai e vem das águas faz com que as pessoas desenvolvam suas próprias dinâmicas e relações com a natureza. Quase tudo vem das águas ou é feito sob elas. Mas as mudanças climáticas, que são o grande problema mundial e que não vêm sendo tratadas com a devida urgência por alguns países, como  o Brasil, por exemplo, colocam em risco de morte esses modos de vida particular, das populações amazônidas.

 

Sendo um elemento essencial  para a manutenção da vida, a água doce está ficando escassa e diversos são os fatores que têm contribuído para tal problema, sendo o desmatamento, as queimadas, a implantação de grandes projetos, o barramento de rios e contaminação de rios por agrotóxicos ou mineração, são alguns dos impulsionadores da diminuição da oferta de água.

 

As alterações no ciclo das chuvas que alimentam os rios têm gerado não somente seca, mas também cheias em locais que até então não eram comuns essas alterações, além de impactar o ambiente natural, impacta também a geração de renda, como é o caso do igarapé que passa na comunidade Santa Maria do rio Curuá-una, na região do planalto santareno. 

 

As chuvas do último inverno amazônico foram  mais volumosas, fazendo o nível do igarapé subir em proporções ainda não vista antes pelo moradores, causando prejuízos  para quem trabalha nos balneários ao longo do igarapé

 

Os pés de açaizeiros que garantem uma fonte de renda a mais para o aposentado Francisco Furtado, também estão sendo impactados com o excesso de águas em suas raízes, muitos não resistiram e acabaram virando sob a lama que tem se formado no solo.

 

Na imagem é possível identificar  a quantidade  de lama  em meio aos pés de açaí. Foto: Roberta Batista.

 

Seu Francisco vive a cerca de 40 anos na propriedade e há 30 anos colhe açaí dos pés que ele mesmo plantou. Além da venda do açaí que ajuda nas despesas da casa, ele vende polpas de outras frutas, como o murici e o taperebá, que ainda se colhe com abundância na safra, ao contrário do açaí, que, além de ser mais rentável é mais procurado pelos consumidores, informou o aposentado.

 

O excesso de água  está matando a plantação de açaí. Foto: Roberta Batista.



Com invernos mais intensos nos últimos anos, causados por conta das mudanças climáticas, "a produção de açaí ultimamente enfraqueceu bastante, a água cresceu muito aqui no Igarapé e uma parte do meu açaí morreu devido a água permanecer muitos meses dentro desse plantio de açaí", seu Francisco  diz ainda  que a diminuição na produção nos últimos 2 anos já é de cerca de 30%.

 

O medo de ter ainda mais prejuízos  com o açaí continua, visto que o período de chuvas está próximo. Segundo ele: “os que não morreram [pés de açaí] também não produziram, então se o inverno permanecer esse ano novamente da mesma maneira, será reduzido mais de cinquenta por cento do meu plantio”.

 

A área que antes enchia os olhos dos visitantes que frequentam o balneário da família mudou muito, e essa foi mais uma atividade econômica prejudicada por conta do aumento no volume da água no igarapé.

 

Socorro Batista é a administradora do local, junto com seu esposo. Segundo ela, “o funcionamento do balneário tem sido prejudicado desde o ano de 2020, por conta do avanço da pandemia; fechamos antes mesmo do prefeito decretar a suspensão das atividades porque aqui vem muita gente e a aglomeração seria certa, isso ia colocar a nossa saúde e a saúde das outras pessoas em risco”, comentou.

 

Um outro problema citado pela autônoma é em relação aos impactos das atividades de agronegócio na região do planalto de Curuá-una, algumas plantações que ficam próximas do leito de água do igarapé, não respeitam o limite mínimo e arrastam a terra até a sua margem, a chuva cai e suja a nossa água, que fica  com uma cor leitosa, não tendo como as pessoas  tomarem banho.

 

Além da lama, e a pandemia, Socorro desabafa ainda, "dá tristeza de olhar para o espaço e ver que as águas  não baixaram, o local onde antes se via areia branca e águas cristalinas; hoje se tem lama, vegetações aquáticas e açaizeiro morrendo por conta da grande umidade". 

 

A suspensão  das atividades no balneário afeta outras pessoas, afirma Socorro, “o rapaz que fornece carvão, as pessoas de quem compramos macaxeira,  verduras, gás, galinha caipira. Acaba gerando um problema financeiro em cadeia, mesmo que em pequena escala".

 

Há dois anos esta era a paisagem do balneário. Foto: João Paulo.

 

Mesmo sendo a realidade de um local em específico, não foge da realidade global, essa é mais uma forma de como as mudanças climáticas afetam as pessoas. Para algumas pessoas, algumas centenas de reais podem não fazer diferença em um mês, mas, para outras, ter uma diminuição da receita mensal continuada por meses, como é o caso dessas pessoas, já gera um problema maior. Principalmente com a alta da inflação no contexto pandêmico

 

Quando se fala em injustiça climática, fala-se de como os efeitos das ações humanas que vêm destruindo o mundo, recaem com o preço mais alto sempre para os que menos contribuem para tal destruição. É preciso ter responsabilidade e agilidade  com a pauta climática.

 

Além disso, é necessário tratar  o problema do clima no mundo de forma transversal, onde todas as esferas sociais e de governança, sejam elas locais, regionais, nacionais e internacionais trabalhem de forma sincrônica com ações imediatas e a longo prazo, além de ações educacionais, para que seja possível salvar o mundo da destruição para qual se está caminhando.

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