
Por Tainá Rionegro e Vanda Witoto
O caminho da roça ensinou Vanda Witoto a não se perder.
Quando criança, caminhar por horas entre grandes árvores fazia parte de uma aprendizagem que não cabia dentro de uma sala de aula. Era preciso reconhecer a terra, distinguir plantas, guardar caminhos, saber para onde ir e, sobretudo, saber voltar. Décadas depois, quando pergunto se ela se sente pronta para ocupar o Congresso Nacional, é para esse chão que Vanda retorna.
“O território, o caminho da roça, nos prepara para fazer qualquer jornada nesse mundo.”
Vanda nasceu em Amaturá, no Alto Solimões, no interior do Amazonas. Mulher do povo Witoto, deixou o interior ainda adolescente e chegou a Manaus em 2002. Como tantas meninas que atravessam os rios amazônicos em direção à capital, não encontrou imediatamente a promessa de uma vida melhor. Trabalhou como empregada doméstica e viveu relações que hoje nomeia como marcadas pela subalternidade, humilhação e violência. Ainda assim, continuou estudando. Tornou-se técnica de enfermagem e, depois, pedagoga pela Universidade do Estado do Amazonas.
Há uma inversão importante quando Vanda conta essa história. Aquilo que poderia ser lido apenas como um passado de privações aparece também como conhecimento sobre o Amazonas que pretende representar.
“Eu sempre estive servindo as pessoas num lugar de subalternidade”, ela me diz. “Talvez eu queira servir esse estado, a população, de uma outra forma, construindo políticas públicas, com autoridade política.”
É difícil ouvir essa frase sem pensar em quantas mulheres amazônidas aprenderam a conhecer a cidade pelo lado de dentro das casas dos outros. Mulheres indígenas, ribeirinhas e do interior que chegam a Manaus para cuidar de crianças, limpar casas, cozinhar e servir famílias, enquanto suas próprias histórias permanecem do lado de fora.
Vanda conheceu Manaus também por esse lugar.
Mas sua trajetória atravessaria outros territórios. Na universidade, fortaleceu sua identidade indígena e participou da organização de estudantes indígenas. No Parque das Tribos, na maior aldeia da periferia de Manaus, sua atuação passou pela saúde, pela educação e pela organização comunitária. Durante a pandemia de Covid-19, ajudou a organizar atendimento comunitário quando faltavam estrutura, equipamentos e oxigênio. Depois, vieram iniciativas como a escola de saberes ancestrais Jofo Nimairama, o Ateliê Derequine e o Instituto Witoto.
Talvez por isso, quando Vanda fala em política, ela fale tão pouco de abstrações. Fala de água, saneamento, da mulher que espera atendimento de saúde, da família que precisa sair do interior para buscar tratamento em Manaus.Fala da seca, da enchente, do fogo e das pessoas tentando responder com as próprias mãos a eventos climáticos cada vez mais extremos.
“Estamos nesse lugar de lutar ainda pelo básico, pelo básico”, repete.
E é justamente aí que sua ideia de representação encontra a identidade. Para Vanda, parte do Amazonas ainda precisa reconhecer a própria cara. Tucupi, farinha, peixe, rede, rio, modos de viver e de compartilhar o território carregam conhecimentos indígenas que atravessam profundamente a cultura amazonense, embora a identidade indígena continue sendo negada.
“A minha presença nesse espaço político vai fazer as pessoas primeiro se verem como parente”, diz. “Quando a gente nega essa identidade com que eu me aparento, é negar nossa própria história.”
No Parque das Tribos, onde vivem famílias de dezenas de povos, ela aprendeu também que coletividade não significa concordância permanente. Há divergências, conflitos e interesses diferentes. O território, porém, obriga a construir algo comum.
Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas para compreender a política que Vanda reivindica: aldear a política não significa apagar as diferenças. Significa descobrir o que, apesar delas, precisa ser defendido coletivamente.
Mas há outra dimensão de sua trajetória que me interessa particularmente: a alegria.
Pergunto a Vanda como é possível continuar sorrindo, dançando e cantando diante de tanta violência. Ela se emociona.
Conta que houve um tempo em que seu povo quase não dançava nem cantava mais suas músicas nas próprias línguas. Foi no processo de retomada da identidade e da memória que compreendeu uma coisa simples e imensa: depois de cinco séculos de violência, eles continuavam vivos porque nunca deixaram completamente de cantar e dançar.
“Essa alegria, mesmo diante desse caos que a gente vivencia, é o que me faz não querer desistir.”
No pensamento Witoto, ela explica, canta-se para esfriar o coração da terra. Pisa-se no chão para sentir novamente a mãe-terra e recuperar a energia. O Instituto Witoto registra essa compreensão do canto e da dança como formas de conexão com espiritualidade, ancestralidade e resistência.
Talvez seja por isso que a imagem da roça volte no final da nossa conversa.
Pergunto novamente o que significa estar pronta.
Vanda não responde falando de Brasília. Não enumera cargos. Não apresenta currículo.
Volta para a menina caminhando entre árvores.
“Enquanto criança, aprender a ir para uma roça e não se perder e voltar, essa preparação me faz ter muita confiança de que esse preparo que nos traz até aqui, essa caminhada, ela nos preparou até aqui.”
Há uma provocação profunda nessa resposta.
Durante muito tempo, o Brasil estabeleceu quais conhecimentos autorizavam alguém a ocupar os espaços de decisão. Como se reconhecer uma floresta não fosse conhecimento. Como se atravessar um rio não exigisse inteligência. Como se organizar uma comunidade não fosse gestão. Como se sobreviver à ausência do Estado não produzisse uma compreensão radical sobre política pública.
Vanda propõe inverter essa lógica.
A roça não aparece como o lugar distante do Congresso.
A roça aparece como preparação para chegar até ele.
“Nós fomos preparados no chão da roça, com toda aquela complexidade da floresta, das distâncias. E eu tenho certeza de que esse Congresso não é distante para nós. Esse Congresso que está lá em Brasília é um território que os nossos corpos merecem estar, estão preparados para estar.”
Há caminhos que a gente aprende olhando mapas.Outros, reconhecendo árvores.
Vanda Witoto diz que aprendeu cedo a entrar na mata sem se perder e, principalmente, a encontrar o caminho de volta.
Agora, diante de Brasília, ela reivindica o mesmo direito: caminhar por um território que durante muito tempo disseram que não ser seu. Ela está pronta. Vanda é flecha e o arco é o povo que teve que sustentar à gana silenciadora da Casa Grande.