Café Agroecológico fortalece renda e protagonismo de mulheres agricultoras em Santarém

Iniciativa da AMTR transforma produção da agricultura familiar em alimento saudável, geração de renda e valorização da agroecologia no oeste do Pará

15/04/2026 às 15h30
Por: Conce Gomes
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Foto: AMTR
Foto: AMTR

Uma mesa farta e cheia organizada por mulheres agricultoras, onde o cheiro do café se mistura com a tapioca feita na hora, ao mingau de banana e de jerimum, e às frutas colhidas nos próprios quintais. Em Santarém, no oeste do Pará, são as mãos de mulheres agricultoras que transformam a produção agroecológica dos roçados familiares em alimento, renda e autonomia. 

Essa é a base do Café Agroecológico, iniciativa que surgiu a partir da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém (AMTR), que há 11 anos organiza agricultoras da região e fortalece a agroecologia e a economia solidária.

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Entre 2022 e 2025, com o intuito de ampliar a autonomia financeira das mulheres, a nova diretoria da associação idealizou em parceria com a Rede Eclesial Pan- Amazônica (REPAM), a realização de uma Feira Agroecológica - esse que seria o pontapé inicial para a transformação e autonomia financeira das agricultoras rurais.

Com a parceria da REPAM, foi possível acessar recursos que proporcionaram o fortalecimento das mulheres e da AMTR. O passo seguinte partiu da reflexão conjunta entre as mulheres, que perceberam que havia outras possibilidades de geração de renda,  indo além da venda dos produtos in natura. 

Então, a diretoria realizou um levantamento para compreender o que as associadas já produziam em seus roçados e quintais, e como essas matérias primas eram transformadas em produtos que chegavam às mesas para consumo final.  Em 2022, as mulheres já tinham seus quintais produtivos e comercializavam a produção, mas, ainda faltava uma estruturação para organizar essas vendas de forma contínua e com melhores resultados financeiros. Foi nesse contexto que surgiu a ideia do Café Agroecológico. 

Ana Cecília, Engenheira Agrônoma, que atuou na Diretoria Social da AMTR até janeiro de 2025, conta como surgiu a ideia para o Café Agroecológico: 

“Nós sabemos que a maioria das nossas mulheres são muito boas na parte de comida, de alimentação, além de produzir, elas transformam aquele produto em alimento para mesa. E tem várias receitas, receitas tradicionais, receitas que elas herdaram de avó, de mãe, de mulheres que estavam ao redor delas. Então, por que não oferecer um café diferente?”

Esse pensamento surgiu observando uma contradição dos próprios eventos realizados pelos movimentos sociais que contavam com cafés contratados de empresas que forneciam produtos industrializados.

 “Nós íamos para esses eventos, falávamos de agroecologia, de segurança alimentar e nos alimentávamos com coffee break feito de produtos industrializados. Ou então produtos que não vinham das mãos das próprias produtoras. E por que não dá essa oportunidade para elas? Isso foi super importante, foi uma virada de chave para que a gente pudesse pensar em uma articulação, como colocar isso de fato para acontecer”, afirma

Foto/ Arquivo pessoal

O primeiro chamado

A virada veio ainda em 2022, durante um evento sobre segurança alimentar realizado na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Na ocasição, onde esteve presente a coordenadora do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, as professoras Rosana, conhecida como Bibi, e a professora Daniele Wagner fizeram o questionamento: que tal essas organizações de mulheres oferecerem o café agroecológico? E por que não valorizar a agricultura familiar?

Esse foi o gancho que precisa, pois essa ideia já existia entre as mulheres agricultoras. Daí em diante surge o primeiro desafio, disponibilizar o Café Agroecológico para um evento. 

No dia 23 de junho de 2022, foi servido o primeiro café agroecológico. Desde então, a iniciativa não parou mais. Elas entenderam o potencial do projeto e continuaram promovendo o serviço. Marilene Rodrigues, atual coordenadora da AMTR, relembra: 

“Esse café rendeu! Porque foi através do nosso cardápio, com as entegas de café com frutas, a tapioquinha, o derivado da mandioca completo. E também os mingaus que vem também dos quintais, com a banana, o jerimum. Então isso fortaleceu muito porque logo que encerrou a atividade, a gente ainda parou uma semana, mas depois continuou. Tiramos a professora Ana Cecília para coordenar esse café porque a gente não tinha ideia assim de como fazer”. 

A preparação dos produtos do café ocorre de maneira coletiva. Marilene conta que as mulheres se juntam na casa uma da outra e trabalham juntas, mas o sonho é ter um espaço próprio de produção. “Nós ainda trabalhamos nas casas das mulheres, organizando um local para nós. A gente vai pra lá e trabalha junto. A gente se junta numa casa, na outra pra gente trabalhar o alimento, mas o nosso sonho está no ar, porque nós estamos correndo atrás de apoio para construir a nossa cozinha agroecológica”, declara. 

Foto: Arquivo pessoal

Além da geração de renda, o Café também promove o resgate de alimentos tradicionais pouco presentes em eventos, como os mingaus, o beiju mole, bolinhos de cueira e outros. Além disso, as frutas locais ganharam destaque na mesa. A laranja, pupunha, banana grande, sapotilha, entre outras frutas são oferecidas de acordo com a época. 

Renda, autonomia e protagonismo

Alciete Mendes, agricultora familiar da comunidade de Serra Grande do Ituqui, nos conta como o Café Agroecológico contribuiu com a renda das famílias. 

“O café agroecológico ajudou minha família e a gente forneceu o café agroecológico em alguns eventos. Então é um incentivo muito grande e uma renda extra na família que entra que a gente pode construir mais alguma coisa, investir em alguma coisa”, afirma. 

Já Dona Dioneia, outra mulher agricultora que participa do projeto, destaca os efeitos mais amplos da iniciativa, especialmente a importância para o protagonismo feminino: “ Protagonismo e visibilidade; Empoderamento e Autonomia; Saúde e Qualidade de vida; Valorização do Trabalho; Futuro e Sustentabilidade. Sim, significamente melhorias na renda das pequenas produtoras e principalmente por aumentar o valor agregado do produto e a valorização do trabalho da mulher.”

Foto: Arquivo Pessoal

O Café Agroecológico garante alimento saudável, fortalece o escoamento da produção e amplia a renda das famílias. Ao mesmo tempo, reafirma a agroecologia como prática viva nos territórios. As agricultoras, no entanto, ressaltam que o projeto ainda precisa de apoio contínuo para se expandir e atender à demanda crescente.

Construída a partir da organização coletiva, a iniciativa mostra que as soluções vêm da terra e dos territórios. São mulheres trabalhadoras rurais que, com resistência e saberes ancestrais, alimentam suas famílias, enfrentando os agrotóxicos, a monocultura e defendendo outra forma de produzir e viver.

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