
A crise climática costuma ser apresentada em números que parecem distantes da vida cotidiana: temperaturas recordes, rios em níveis extremos, áreas queimadas, toneladas de gases de efeito estufa emitidos. Mas há uma dimensão desse problema que começa muito antes de uma criança conseguir compreender o que está acontecendo ao seu redor. Para crianças de 0 a 6 anos, o clima interfere em coisas básicas como respirar, brincar, ir à escola, ter água potável e receber uma alimentação adequada.
A primeira infância é uma etapa decisiva do desenvolvimento humano. É nesse período que acontecem importantes processos de formação física, cognitiva e emocional. Por isso, as condições em que bebês e crianças pequenas vivem e interagem com o ambiente podem ter repercussões ao longo de toda a vida.
No Brasil, um retrato recente ajuda a compreender o impacto que os efeitos de eventos climáticos extremos podem deixar na infância. Em 2024, a influência do El Niño contribuiu para ocorrência de episódios climáticos em diferentes regiões do país. Enquanto as enchentes atingiam o Rio Grande do Sul, afetando a rotina de centenas de milhares de estudantes, a seca severa na Amazônia deixava comunidades sem acesso regular à água, à alimentação e, em muitos casos, à própria educação. Segundo análise do Unicef, 436 mil crianças e adolescentes foram afetados pela interrupção das aulas na região amazônica. Em todo o país, o número chegou a cerca de 1,17 milhão.
O dado revela que os impactos de uma emergência climática não terminam quando a chuva passa ou quando o rio volta a subir. Os eventos extremos podem afastar famílias de suas casas, dificultar o acesso à serviços de saúde, comprometer a renda e alterar a própria rotina de cuidado das crianças.
A pesquisa “A primeira infância no centro da crise climática”, produzida pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) em parceria com o Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), chama atenção justamente para essa relação. Publicado em 2025, o estudo reúne evidências sobre os efeitos das mudanças climáticas na vida de bebês e crianças pequenas e mostra como os riscos ambientais podem afetar muitos aspectos do desenvolvimento infantil.
O Brasil tem cerca de 18,1 milhões de crianças de 0 a 6 anos. Desse total, 8,1 milhões vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza. Entre as crianças de 0 a 4 anos, 37,4% enfrentam algum grau de insegurança alimentar — o equivalente a 5,4 milhões. O NCPI aponta que vulnerabilidades sociais e econômicas, como pobreza e falta de acesso a serviços básicos, podem agravar os impactos dos eventos climáticos sobre essa população.
“O nosso objetivo foi trazer essa discussão para o centro da atenção das discussões climáticas, porque tudo que acontece na primeira infância tem um efeito de ciclo de vida. Tem um efeito na vida adulta, no desempenho escolar e até no capital humano de um país”, destacou Márcia Castro, chefe do Departamento de Saúde Global e Populações da Universidade de Harvard.
Na região amazônica, as mudanças no clima interferem diretamente em atividades que organizam a vida das comunidades. A subida ou a descida dos rios pode mudar dinâmicas de deslocamento e afetar a produção, o abastecimento e a renda das famílias.
Em comunidades ribeirinhas, por exemplo, quando a navegabilidade é prejudicada, serviços e direitos básicos podem ficar mais distantes. Para uma criança pequena, isso pode significar perder consultas, faltar à escola ou passar mais tempo longe de espaços de convivência. As consequências dependem muito das condições de cada comunidade e das alternativas disponíveis para enfrentar esses períodos.
A fumaça das queimadas também representa um risco à saúde infantil. Períodos de incêndios florestais e da piora da qualidade do ar podem aumentar a exposição das crianças a partículas que afetam o sistema respiratório. Em um organismo ainda em desenvolvimento, esse tipo de exposição exige atenção especial.
Há ainda o calor. O aumento das temperaturas pode aumentar o risco de desidratação e estresse térmico, além de prejudicar o sono e o conforto das crianças, especialmente em espaços sem ventilação adequada, arborização ou condições de reduzir o calor.
“Se a gente pega a onda de calor, os bebês e as crianças não têm o mesmo processo de transpiração que os adultos têm, que é um processo que ajuda a resfriar a temperatura do corpo. Então, essas crianças podem até ter um estresse térmico, podem ter convulsões e uma série de problemas”, ressaltou Márcia.
Os impactos da crise climática, no entanto, não atingem todas as crianças da mesma maneira. O estudo do NCPI aponta que crianças negras, indígenas e moradoras das regiões Norte e Nordeste estão entre as populações mais expostas às consequências da crise climática, em um cenário em que desigualdades sociais e ambientais se sobrepõem.
Uma criança que vive em uma área com pouca infraestrutura enfrenta uma situação diferente daquela que dispõe de água tratada e atendimento de saúde próximo. Quando um evento extremo compromete ainda mais esses serviços, as desigualdades podem se aprofundar.
Para Eugênio Scannavino, médico fundador e coordenador do Projeto Saúde e Alegria (PSA), as consequências da crise climática ultrapassam o período de estiagem e podem afetar a saúde e o desenvolvimento infantil durante meses.
“Quando há uma seca extrema, as lavouras são perdidas, a oferta de peixes diminui e o acesso aos alimentos fica comprometido. Isso aumenta o risco de desnutrição, especialmente entre as crianças. Além disso, a falta de água potável favorece surtos de diarreia e outras doenças, enquanto o isolamento das comunidades dificulta o acesso aos serviços de saúde, à vacinação e aos medicamentos”, explica.
Há 40 anos, o Projeto Saúde e Alegria atua junto a comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, desenvolvendo iniciativas voltadas ao acesso à água potável, à energia solar e à assistência em saúde.
Entre as iniciativas estão as Unidades Básicas de Saúde da Floresta, adaptadas às necessidades de populações isoladas, com equipamentos para vacinação, acompanhamento pré-natal e atendimento médico, além de recursos para telemedicina. “Quando a gente vacina uma criança, estamos fazendo saúde para o planeta e para nós mesmos”, destacou o médico.
A proteção da primeira infância não pode ser pensada apenas como uma resposta emergencial depois que um desastre acontece. O NCPI aponta a necessidade de políticas públicas de prevenção e adaptação que considerem as especificidades das crianças.
Entre as recomendações apresentadas estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, melhorias no saneamento básico, incentivo à agroecologia e à agricultura familiar, criação de espaços seguros para crianças durante deslocamentos, atenção à saúde mental, reassentamento digno de famílias atingidas e adaptação de creches e escolas aos riscos climáticos.
Na Amazônia, essas medidas precisam considerar os diferentes modos de vida e os territórios onde as crianças estão inseridas. A resposta necessária para uma criança que vive em uma comunidade ribeirinha não será necessariamente a mesma daquela destinada a uma criança que vive em uma área urbana densamente ocupada.
Para a mãe, ativista ambiental e comunicóloga Catarina Nefertari, enfrentar a crise climática também demanda reconhecer seus impactos sobre os direitos das crianças.
“Diante da crise climática, a gente precisa ter muita atenção às infâncias porque ela agrava a falta de acesso das crianças a direitos fundamentais, como o direito ao contato com a natureza, o direito de brincar e o direito de crescer em harmonia com o meio ambiente ao seu redor. Então a gente sabe que com a crise climática as injustiças são muito agravadas e a injustiça climática recai também sobre as crianças, então cuidar da crise climática é também cuidar das infâncias”, afirma.
Além de responder aos ipactos imediatos dos eventos extremos, as políticas públicas precisam garantir condições permanentes de cuidado, proteção e desenvolvimento. Isso envolve preparar serviços essenciais para períodos de secas, cheias, calor extremo e outros eventos climáticos, além de reduzir as vulnerabilidades das populações mais expostas.
“As medidas de adaptação às mudanças climáticas precisam levar em consideração a diversidade das infâncias e na Amazônia a gente tem uma diversidade muito grande, Há crianças que habitam nas cidades habitam, em grandes prédios, mas habitam também nas beiras dos rios habitam na zona rural e em nos territórios de comunidades tradicionais”, ressaltou Catarina, que também é codiretora-executiva do movimento Amazônia de Pé.
Ainda segundo ela, é importante que as crianças cresçam conscientes do território onde vivem, aprendam a cuidar dele e possam compartilhar esse cuidado também nas brincadeiras e nas experiências da infância.
“O que acontece com uma criança quando o território onde ela deveria crescer, brincar, aprender e se alimentar passa a ser atravessado por secas, calor extremo, fumaça, enchentes e insegurança alimentar? Talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas que mundo deixaremos para as crianças do futuro, mas em que condições estamos permitindo que elas vivam a infância hoje. Crescer consciente do território onde se vive também é aprender a cuidar dele”, refletiu Catarina.
A crise climática reforça a necessidade de incluir as crianças nas políticas de prevenção e adaptação, considerando a diversidade das infâncias amazônicas e as condições de vida nos diferentes territórios.