Na Amazônia, crise climática ameaça condições para o desenvolvimento de crianças

Secas, calor extremo, fumaça, enchentes e insegurança alimentar já interferem na rotina de crianças de várias regiões do Brasil. Na Amazônia, proteger os primeiros anos de vida também significa garantir condições para que elas cresçam, brinquem, aprendam e se alimentem em seus territórios

14/10/2026 às 13h21
Por: Victor Ribeiro Fonte: Tapajós de Fato
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Foto: Instituto Alana
Foto: Instituto Alana

A crise climática costuma ser apresentada em números que parecem distantes da vida cotidiana: temperaturas recordes, rios em níveis extremos, áreas queimadas, toneladas de gases de efeito estufa emitidos. Mas há uma dimensão desse problema que começa muito antes de uma criança conseguir compreender o que está acontecendo ao seu redor. Para crianças de 0 a 6 anos, o clima interfere em coisas básicas como respirar, brincar, ir à escola, ter água potável e receber uma alimentação adequada.

A primeira infância é uma etapa decisiva do desenvolvimento humano. É nesse período que acontecem importantes processos de formação física, cognitiva e emocional.  Por isso, as condições em que bebês e crianças pequenas vivem e interagem com o ambiente podem ter repercussões ao longo de toda a vida. 

No Brasil, um retrato recente ajuda a compreender  o impacto que os efeitos de eventos climáticos extremos podem deixar na infância. Em 2024, a influência do El Niño contribuiu para ocorrência de episódios climáticos em diferentes regiões do país. Enquanto as enchentes atingiam o Rio Grande do Sul, afetando a rotina de centenas de milhares de estudantes, a seca severa na Amazônia deixava comunidades sem acesso regular à água, à alimentação e, em muitos casos, à própria educação. Segundo análise do Unicef, 436 mil crianças e adolescentes foram afetados pela interrupção das aulas na região amazônica. Em todo o país, o número chegou a cerca de 1,17 milhão.

O dado revela que os impactos de uma emergência climática não terminam quando a chuva passa ou quando o rio volta a subir. Os eventos extremos podem  afastar famílias de suas casas, dificultar o acesso à serviços de saúde, comprometer a renda e alterar a própria rotina de cuidado das crianças.

Foto: Amazônia Real

A pesquisa “A primeira infância no centro da crise climática”, produzida pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) em parceria com o Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), chama atenção justamente para essa relação. Publicado em 2025, o estudo reúne evidências sobre os efeitos das mudanças climáticas na vida de bebês e crianças pequenas e mostra como os riscos ambientais  podem afetar muitos aspectos do desenvolvimento infantil.

O Brasil tem cerca de 18,1 milhões de crianças de 0 a 6 anos. Desse total, 8,1 milhões vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza. Entre as crianças de 0 a 4 anos, 37,4% enfrentam algum grau de insegurança alimentar — o equivalente a 5,4 milhões. O NCPI aponta que vulnerabilidades sociais e econômicas, como pobreza e falta de acesso a serviços básicos, podem agravar os impactos dos eventos climáticos sobre essa população.

“O nosso objetivo foi trazer essa discussão para o centro da atenção das discussões climáticas, porque tudo que acontece na primeira infância tem um efeito de ciclo de vida. Tem um efeito na vida adulta, no desempenho escolar e até no capital humano de um país”, destacou Márcia Castro, chefe do Departamento de Saúde Global e Populações da Universidade de Harvard.

Foto: Amazônia Real

Na Amazônia, o clima muda a rotina

Na região amazônica, as mudanças no clima interferem diretamente em atividades que organizam a vida das comunidades. A subida ou a descida dos rios pode mudar dinâmicas de deslocamento e afetar a produção, o abastecimento e a renda das famílias.

Em comunidades ribeirinhas, por exemplo, quando a navegabilidade é prejudicada, serviços e direitos básicos podem ficar mais distantes. Para uma criança pequena, isso pode significar perder consultas, faltar à escola ou passar mais tempo longe de espaços de convivência. As consequências dependem muito das condições de cada comunidade e das alternativas disponíveis para enfrentar esses períodos.

A fumaça das queimadas também representa um risco à saúde infantil. Períodos de incêndios florestais e da piora da qualidade do ar podem aumentar a exposição das crianças a partículas que afetam o sistema respiratório. Em um organismo ainda em desenvolvimento, esse tipo de exposição exige atenção especial.

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Há ainda o calor. O aumento das temperaturas pode aumentar o risco de desidratação e estresse térmico, além de prejudicar  o sono e o conforto das crianças, especialmente em espaços sem ventilação adequada, arborização ou condições de reduzir o calor.

“Se a gente pega a onda de calor, os bebês e as crianças não têm o mesmo processo de transpiração que os adultos têm, que é um processo que ajuda a resfriar a temperatura do corpo. Então, essas crianças podem até ter um estresse térmico, podem ter convulsões e uma série de problemas”, ressaltou Márcia.

Diagramação: Tapajós de Fato

Os impactos da crise climática, no entanto, não atingem todas as crianças da mesma maneira. O estudo do NCPI aponta que crianças negras, indígenas e moradoras das regiões Norte e Nordeste estão entre as populações mais expostas às consequências da crise climática, em um cenário em que desigualdades sociais e ambientais se sobrepõem.

Uma criança que vive em uma área com pouca infraestrutura enfrenta uma situação diferente daquela que dispõe de água tratada e atendimento de saúde próximo. Quando um evento extremo compromete ainda mais esses serviços, as desigualdades podem se aprofundar. 

Para Eugênio Scannavino, médico fundador e coordenador do Projeto Saúde e Alegria (PSA), as consequências da crise climática ultrapassam o período de estiagem e podem afetar a saúde e o desenvolvimento infantil durante meses.

“Quando há uma seca extrema, as lavouras são perdidas, a oferta de peixes diminui e o acesso aos alimentos fica comprometido. Isso aumenta o risco de desnutrição, especialmente entre as crianças. Além disso, a falta de água potável favorece surtos de diarreia e outras doenças, enquanto o isolamento das comunidades dificulta o acesso aos serviços de saúde, à vacinação e aos medicamentos”, explica.

Foto: Projeto Saúde e Alegria

Há 40 anos, o Projeto Saúde e Alegria atua junto a comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, desenvolvendo iniciativas voltadas ao acesso à água potável, à energia solar e à assistência em saúde. 

Entre as iniciativas estão as Unidades Básicas de Saúde da Floresta, adaptadas às necessidades de populações isoladas, com equipamentos para vacinação, acompanhamento pré-natal e atendimento médico, além de recursos para telemedicina. “Quando a gente vacina uma criança, estamos fazendo saúde para o planeta e para nós mesmos”, destacou o médico.

Proteger a criança também é preparar o território

A proteção da primeira infância não pode ser pensada apenas como uma resposta emergencial depois que um desastre acontece. O NCPI aponta a necessidade de políticas públicas de prevenção e adaptação que considerem as especificidades das crianças. 

Entre as recomendações apresentadas estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, melhorias no saneamento básico, incentivo à agroecologia e à agricultura familiar, criação de espaços seguros para crianças durante deslocamentos, atenção à saúde mental, reassentamento digno de famílias atingidas e adaptação de creches e escolas aos riscos climáticos.

Na Amazônia, essas medidas precisam considerar os diferentes modos de vida e os territórios onde as crianças estão inseridas. A resposta necessária para uma criança que vive em uma comunidade ribeirinha não será necessariamente a mesma daquela destinada a uma criança que vive em uma área urbana densamente ocupada.

Para a mãe, ativista ambiental e comunicóloga Catarina Nefertari, enfrentar a crise climática também demanda reconhecer seus impactos sobre os direitos das crianças.  

“Diante da crise climática, a gente precisa ter muita atenção às infâncias porque ela agrava a falta de acesso das crianças a direitos fundamentais, como o direito ao contato com a natureza, o direito de brincar e o direito de crescer  em harmonia com o meio ambiente ao seu redor. Então a gente sabe que com a crise climática as injustiças são muito agravadas e a injustiça climática recai também sobre as crianças, então cuidar da crise climática é também cuidar das infâncias”, afirma.

Foto: Projeto Saúde Alegria

Além de responder aos ipactos imediatos dos eventos extremos, as políticas públicas precisam garantir condições permanentes de cuidado, proteção e desenvolvimento. Isso envolve preparar serviços essenciais para períodos de secas, cheias, calor extremo e outros eventos climáticos, além de reduzir as vulnerabilidades das populações mais expostas.

“As medidas de adaptação às mudanças climáticas precisam levar em consideração a diversidade das infâncias e na Amazônia a gente tem uma diversidade muito grande, Há crianças que habitam nas cidades habitam, em grandes prédios, mas habitam também nas beiras dos rios habitam na zona rural e em nos territórios de comunidades tradicionais”, ressaltou Catarina, que também é codiretora-executiva do movimento Amazônia de Pé. 

Ainda segundo ela, é importante que as crianças cresçam conscientes do território onde vivem, aprendam a cuidar dele e possam compartilhar esse cuidado também nas brincadeiras e nas experiências da infância.

“O que acontece com uma criança quando o território onde ela deveria crescer, brincar, aprender e se alimentar passa a ser atravessado por secas, calor extremo, fumaça, enchentes e insegurança alimentar? Talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas que mundo deixaremos para as crianças do futuro, mas em que condições estamos permitindo que elas vivam a infância hoje. Crescer consciente do território onde se vive também é aprender a cuidar dele”, refletiu Catarina.

Foto: Projeto Saúde e Alegria

A crise climática reforça a necessidade de incluir as crianças nas políticas de prevenção e adaptação, considerando a diversidade das infâncias amazônicas e as condições de vida nos diferentes territórios.

 

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