
Quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré percorre as ruas de Belém, a cidade não se divide simplesmente entre quem é católico e quem não é. Entre os milhões que acompanham as romarias, fazem promessas, preparam o almoço ou esperam a passagem da imagem estão também pessoas que frequentam terreiros, seguem outras tradições cristãs ou vivem espiritualidades construídas a partir de diferentes referências religiosas. Essas experiências não são iguais, mas revelam as diferentes formas de se relacionar com a festa e com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.
Em 2026, o Círio chega à 234ª edição. A abertura oficial aconteceu nesta terça-feira, 6 de outubro, e a principal procissão será realizada no domingo, dia 11.
A devoção tem origem portuguesa e a primeira procissão oficial em Belém ocorreu em 1793. Mas a festa que se consolidou na Amazônia ganhou características próprias. Populações indígenas, negras e caboclas participaram dessa construção e incorporaram à celebração práticas, alimentos, símbolos e formas de compreender o sagrado que não nasceram dentro do catolicismo europeu.
Essa história ajuda a compreender por que, mais de dois séculos depois, e mesmo o Círio sendo uma celebração católica, Nossa Senhora de Nazaré também também é vivida e recebe homenagens vindas de pessoas e instituições de fora dos espaços oficiais da Igreja Católica.
Nas religiões de matriz africana praticadas no Pará, a relação com Nossa Senhora de Nazaré assume diferentes formas. Em algumas tradições, a santa é associada a Oxum. No Tambor de Mina, há ainda relações estabelecidas com Sinhá Abê, princesa encantada presente na tradição mina paraense. Essas associações, porém, não significam que exista uma equivalência aceita por todas as casas ou nações. A forma como Nazaré é compreendida e relacionada a outras entidades varia entre casas, tradições e praticantes.
A ialorixá Mãe Juci D'Oyá explicou essa relação durante o Círio. Ao falar sobre comida, ancestralidade e religião, ela destacou justamente que essa aproximação não é universal.
“Nossa Senhora de Nazaré, não para todos, mas para muitos de nós, é também Oxum, senhora das águas doces, do amor e da fertilidade”, afirma.
Para Mãe Juci, a própria preparação dos alimentos durante o Círio pode carregar uma dimensão religiosa. Folhas, temperos e modos de preparo guardam conhecimentos transmitidos entre gerações e aproximam a festa das ancestralidades negras e indígenas presentes na formação cultural paraense.
E essa presença não fica restrita aos terreiros. Dandara Ferreira, adepta de religião de matriz africana, contou que todos os anos percorre a pé o trajeto de Ananindeua até a Basílica Santuário de Nazaré. A caminhada começou depois de um afogamento, em 2018. Ela conta que pediu a Nossa Senhora de Nazaré que sobrevivesse para continuar cuidando da filha. Desde então, cumpre a promessa durante o Círio.
A história de Dandara é exemplo de uma das formas pelas quais a diversidade aparece na prática. Para ela, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré não representa uma contradição com a religião que pratica.
“Meu terreiro e minha nação é sincretizada, então no sincretismo a nossa senhora é a representação de Oxum”, afirma.
A experiência de Dandara, no entanto, não representa necessariamente a forma como todas as pessoas de religião de matriz africana se relacionam com o Círio. Essa é uma experiência particular, construída a partir das vivências próprias. Ela resumiu sua experiência com a procissão assim: “Por mais que seja um movimento católico ele reúne todas as religiões.”
A experiência de Dandara mostra que pessoas de diferentes tradições podem participar do Círio a partir de referências próprias, deslocando a discussão do campo abstrato do “diálogo inter-religioso”. No Círio, esse encontro também acontece em outras dimensões. São pessoas de diferentes religiões que caminham, pagam promessas, recebem a imagem e participam da cidade transformada pela festa.
A participação negra no Círio é anterior às manifestações contemporâneas.
Fotografias feitas pelo botânico suíço Jacques Huber entre o final do século XIX e o início do século XX registraram uma presença expressiva de pessoas negras na celebração. As imagens foram posteriormente localizadas pelo historiador Nelson Sanjad no Arquivo Cantonal da Basileia, na Suíça. Pesquisas históricas também apontam a participação de sacerdotes e sacerdotisas de religiões de origem africana na construção da festa.
Ao longo do século XX, porém, houve um movimento de maior controle institucional da celebração pela Igreja Católica e de afastamento das associações entre Nazaré e cultos de matriz africana. No entanto, a presença dessas tradições não desapareceu. Ela permaneceu de outras maneiras, em outras práticas, espaços e formas de participação na festa.
Hoje, adeptos de Umbanda, Candomblé e Tambor de Mina acompanham romarias e realizam homenagens próprias durante a quadra nazarena. A devoção não necessariamente significa conversão ao catolicismo. Em determinadas casas, Nazaré passa a fazer parte de um universo religioso no qual santos, orixás, voduns e encantados podem estabelecer relações diferentes daquelas definidas pela Igreja Católica.
É justamente por isso que falar em “sincretismo” exige cuidado. Não existe uma única interpretação compartilhada por todos os terreiros.
Uma das manifestações em que essa pluralidade fica mais visível é o Auto do Círio, organizado pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará.
Em 2025, representantes de religiões de matriz africana, comunidades ciganas e anglicanos participaram do cortejo pelas ruas da Cidade Velha. A edição reuniu cerca de 350 artistas e também incorporou referências indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas.
No Auto, a pluralidade aparece também como expressão artística e ocupação do espaço público. Para o artista Ary Filargo, participante do Auto há mais de uma década, o cortejo permite expressar uma devoção que nem sempre encontra espaço da mesma maneira na procissão oficial.
“Aqui expressamos o amor e a devoção à Nossa Senhora de Nazaré de uma maneira que nem sempre é possível na procissão principal.”
Em 2026, essa característica continua presente. Marcado para sexta-feira, 9 de outubro, o Auto deste ano terá como tema “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”.
Segundo a coordenadora Inês Ribeiro, diferentes tradições religiosas estarão representadas no cortejo. “No cortejo, estarão representantes de várias matizes religiosas como guardiãs do patrimônio e da fé trazendo o manto da Nazinha.”
A edição de 2026 também presta homenagem à professora, atriz e ativista do movimento negro Zélia Amador de Deus, uma das idealizadoras do Auto do Círio, que morreu em setembro deste ano.
A diversidade religiosa e cultural em torno de Nazaré também aparece no Arrastão do Círio
O Arrastão do Círio é um cortejo cultural realizado pelo Arraial do Pavulagem durante a programação do Círio de Nazaré. A manifestação reúne milhares de brincantes pelas ruas do centro histórico de Belém, com música, dança, pernas de pau, instrumentos de percussão e elementos da cultura popular amazônica. O cortejo acontece após a chegada da imagem peregrina trazida pelo Círio Fluvial e transforma a homenagem a Nossa Senhora em uma grande celebração popular.
Na edição de 2025, o Arrastão começou com um “Ritual de Abertura” e uma “Roda Ancestral”, reunindo cantos e danças de indígenas e quilombolas em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Depois da chegada da imagem peregrina à Escadinha do Cais do Porto, o Batalhão da Estrela fez sua saudação a Nazaré ao som de ritmos paraenses, antes de seguir em cortejo pelas ruas de Belém.
Nesse caso, a pluralidade aparece não apenas na presença de diferentes tradições religiosas, mas também na incorporação de referências indígenas, quilombolas e da cultura popular paraense à programação da festa.
Em 2026, o Arrastão chega à 24ª edição e será realizado no sábado, 10 de outubro, véspera da grande procissão. A organização estima aproximadamente 25 mil participantes e anunciou um momento multicultural antes da chegada da imagem peregrina à Escadinha.
A cantora paraense Gaby Amarantos descreveu esse fenômeno de diversidade inter-religiosa ao falar sobre a Laje da Naza, evento no Círio criado por ela. “O Círio é uma festa criada pela Igreja Católica mas que recebe pessoas de todas as religiões.”
A frase resume uma experiência que também aparece em sua própria história familiar. Gaby Amarantos lembrou que cresceu em uma família em que diferentes tradições religiosas conviviam. Sua mãe cantava em terreiro de Tambor de Mina, participava de toques de Candomblé e também rezava o terço.
Essa convivência não elimina diferenças teológicas, tampouco significa que as religiões presentes no Círio se tornem uma só. Também não apaga a história de intolerância enfrentada principalmente pelas religiões de matriz africana.
O que acontece em Belém é mais complexo. Durante alguns dias de outubro, pessoas que chamam a mesma figura sagrada por nomes diferentes, ou sequer compartilham da mesma compreensão sobre ela, ocupam as mesmas ruas.
Algumas rezam o terço. Outras tocam tambor. Há quem cumpra promessa. Há quem dance. Há quem participe do Círio principalmente porque aquela festa também conta a história de sua família, de seu terreiro, de sua comunidade ou da própria cidade.
O Círio permanece oficialmente uma celebração católica. Nas ruas de Belém, porém, a festa é atravessada por uma Amazônia religiosa muito mais diversa. Essas experiências não fazem das diferentes religiões uma só. Elas mostram, antes, que a devoção a Nazaré pode ser vivida de maneiras distintas, e que o Círio, para além de sua programação oficial, também é atravessado pela diversidade religiosa e cultural da Amazônia.
E talvez seja justamente nas margens da programação oficial, diante de um terreiro, em um cortejo artístico, numa roda ancestral ou entre os milhões que caminham atrás de Nazaré, que essa outra dimensão da festa fique mais visível.