Projeto investiga como moradores de Alter do Chão acessam informação e quais notícias são importantes para o território

Tapajós de Fato integra iniciativa que reúne mídias territoriais de diferentes regiões do Brasil e busca aproximar jornalismo e comunidades por meio da escuta; em Alter do Chão, 65 pessoas participaram do primeiro ciclo de entrevistas

06/10/2026 às 11h27 Atualizada em 06/10/2026 às 12h04
Por: Thaís Oliveira Fonte: Tapajós de Fato
Compartilhe:
Foto: Tapajós de Fato
Foto: Tapajós de Fato

Como as pessoas de Alter do Chão se informam? Quais meios de comunicação fazem parte do cotidiano da comunidade? Que tipo de informação os moradores consideram importante? Em quem eles confiam para se informar e quais são as dificuldades para acessar conteúdos de interesse público? Essas são algumas das perguntas que orientam o projeto “Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo”, do qual o Tapajós de Fato participa. 

A iniciativa busca compreender a relação entre comunicação, informação e território. Em Alter do Chão, no município de Santarém, o projeto está sendo desenvolvida por meio de uma metodologia que propõe aproximar veículos de comunicação das comunidades e fortalecer a participação dos moradores na construção das narrativas sobre os lugares onde vivem. O objetivo é conhecer melhor os hábitos de consumo da informação, as demandas e as percepções da população para, a partir dessas escutas, identificar caminhos para um jornalismo mais conectado às necessidades do território.

A iniciativa foi criada pelo Desenrola e Não Me Enrola, em correalização com a Periferia em Movimento e o Território da Notícia, e reúne mídias territoriais de diferentes regiões do Brasil. Além do Tapajós de Fato, participam o Sargento Perifa, de Pernambuco, e o Conquista Repórter, da Bahia. 

A iniciativa também conta com uma infraestrutura digital desenvolvida pelo Território da Notícia, pensada para ampliar a autonomia dos veículos territoriais e contribuir para a circulação e integridade da informação.

Por que Alter do Chão?

No Pará, Alter do Chão foi o território escolhido pelo Tapajós de Fato para essa experiência. Localizada no município de Santarém, a vila é território ancestral do povo indígena Borari e reúne diferentes modos de vida, relações comunitárias e formas de produção e circulação de conhecimento.

A escolha parte da compreensão de que Alter do Chão não deve ser vista apenas como um destino turístico. O território é também lugar de moradia, trabalho, cultura, memória e organização comunitária. Quem vive em Alter do Chão produz conhecimento sobre o próprio território e também possui formas próprias de acessar, compartilhar e avaliar informações. É justamente essa relação que o projeto busca compreender.

O que foi perguntado aos moradores?

Para conhecer essas percepções, moradores de Alter do Chão foram convidados a participar de entrevistas por meio de um formulário. As perguntas procuram identificar quais meios de comunicação são utilizados no cotidiano, como as pessoas acessam notícias e informações, quais são suas principais fontes, como percebem a circulação de informações falsas ou enganosas e quais temas consideram mais importantes para a comunidade.

A escuta também procura compreender quais são as dificuldades encontradas pelos moradores para acessar informações de interesse público e de que maneira eles gostariam de participar da construção das narrativas jornalísticas sobre Alter do Chão. Ou seja, as entrevistas não têm como objetivo apenas saber onde as pessoas se informam, mas entender que relação elas estabelecem com a informação e o que esperam de uma comunicação que dialogue com a realidade do território.

Os resultados desse processo poderão ajudar os veículos participantes a compreender melhor as necessidades informacionais das comunidades e a pensar formas de produzir e distribuir conteúdos mais próximos dessas demandas.

Agentes da Integridade da Informação

Para contribuir com o projeto, o Tapajós de Fato conta com Amanda Borari e Patrícia Borari, moradoras e filhas do território. Elas atuam como agentes da integridade da informação, responsáveis pela aproximação com a comunidade e pela realização das escutas.

Amanda Borari é jovem indígena, comunicadora popular, ativista e guardiã do território Borari. Patrícia Borari é ativista indígena, produtora cultural, professora e mãe.

     

Por meio da metodologia do Território da Notícia, as agentes têm a missão de ouvir os moradores e registrar suas percepções sobre informação e comunicação. A proposta é que a comunidade não seja considerada apenas fonte de informação para o jornalismo, mas participe da produção de conhecimento e da identificação das pautas e questões que dizem respeito ao próprio território. Nesse processo, o território deixa de ser apenas o lugar onde a notícia acontece e passa a ser também um espaço de escuta e participação na construção do jornalismo.

Receba nossas matérias através do whatsapp clicando aqui

O que a escuta já revelou?

O primeiro ciclo de entrevistas realizado em setembro reuniu 65 pessoas. Para Amanda Borari, que participou da realização das escutas, o contato direto com os moradores permitiu observar diferentes formas de acesso à informação entre as gerações.

“No começo, eu ainda não tinha entendido muito bem os impactos que essas informações teriam, nem como poderíamos analisá-las e como essas coletas seriam importantes. Mas, depois que fui a campo, consegui perceber algumas coisas muito importantes. Uma delas foi perceber como essas pessoas têm acesso a notícias e informações no dia a dia. Por exemplo, consegui observar que as pessoas mais velhas ainda têm o hábito de assistir ao jornal, algo que já não vemos tanto entre os jovens”, relata.

Segundo ela, também chamou atenção a percepção de desconfiança em relação às informações recebidas por diferentes meios.

“Com as pessoas com quem tive contato já foi possível perceber que existe pouca credibilidade e segurança em relação às informações que elas recebem pelas redes sociais e até mesmo pelos jornais”, afirma.

Amanda também observou que, entre as pessoas ouvidas, a internet e as redes sociais aparecem com força como meios de acesso à informação. Ao mesmo tempo, segundo sua percepção durante as entrevistas, parte dos moradores demonstra pouco interesse em acompanhar notícias de maneira geral. Para ela, o interesse tende a aumentar quando a informação está relacionada diretamente à vida cotidiana.

“Uma mãe pode querer saber sobre a escola dos filhos; uma pessoa que utiliza o ônibus pode se interessar por informações sobre transporte; alguém que está desempregado pode querer saber sobre oportunidades de emprego e renda”, exemplifica.

Essas observações ainda fazem parte de um primeiro contato com o território e não representam, isoladamente, os resultados finais da pesquisa. 

Quem participou das entrevistas?

Ao todo, neste primeiro ciclo 65 pessoas participaram das escutas realizadas em Alter do Chão. Entre as pessoas entrevistadas, 60% são mulheres cisgênero, 36,9% são homens cisgênero, 1,5% são homens trans e 1,5% são mulheres trans.

Em relação à raça e à identidade étnica, 62,3% se identificaram como indígenas, 10,8% como pretas e 13,8% como pardas.

A faixa etária com maior participação foi a de 25 a 34 anos, com 36,9% das pessoas entrevistadas, seguida pela faixa de 18 a 24 anos, com 18,5%. A faixa etária de 35 a 44 anos correspondeu a 3,1% dos participantes.

E o que acontece depois das entrevistas?

As entrevistas fazem parte de um processo mais amplo. A primeira etapa será concluída em outubro, quando as agentes da integridade da informação retornarão ao território para uma nova rodada de escuta. Essa segunda etapa será voltada à avaliação dos impactos do conteúdo produzidos a partir do projeto. A ideia é compreender não apenas como os moradores se informam, mas também como as informações produzidas pelos veículos chegam ao território, são recebidas e podem responder às demandas identificadas durante a escuta.

Com isso, o projeto pretende construir um ciclo de aproximação entre comunidade e jornalismo: ouvir o território, compreender suas demandas de informação, produzir conteúdos a partir dessas percepções e voltar à comunidade para avaliar os impactos desse processo.

Para quem participou das entrevistas, portanto, as respostas fazem parte de uma construção maior. Elas ajudam a compreender como a informação circula em Alter do Chão e quais caminhos podem ser construídos para que o jornalismo esteja mais próximo das pessoas, dos temas e das necessidades de quem vive no território.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.