
Pneus, sacolas, vasos sanitários e até sofás estão entre os resíduos encontrados nas praias durante as edições da Caminhada Ecológica Maracanã-Alter do Chão. Criada há mais de três décadas, a mobilização chega à 27ª edição nos dias 17 e 18 de outubro, mantendo o alerta para a poluição das praias e as transformações ambientais na região de Santarém, no oeste do Pará.
Organizada pelo Grupo de Defesa da Amazônia (GDA), a caminhada busca sensibilizar moradores de Santarém, visitantes e comunidades localizadas no entorno das praias para a conservação dos recursos naturais. Neste ano, a organização espera reunir cerca de 130 participantes.
A iniciativa começou em 1994, a partir de uma parceria com jovens do bairro Mapiri. Ao longo dos anos, consolidou-se como uma atividade de educação ambiental e mobilização comunitária. Em 2019, passou a integrar o calendário oficial do município.
Um estudo sobre a trajetória da Caminhada Ecológica aponta que, nas primeiras 25 edições, aproximadamente 3,1 mil pessoas participaram da mobilização e cerca de 40 toneladas de resíduos sólidos foram recolhidas, média de 1,6 tonelada por edição.
O percurso abrange aproximadamente 44 quilômetros e passa por 14 praias da orla do rio Tapajós.
Para Maria José Castro dos Santos, coordenadora do evento, a quantidade e a variedade dos resíduos encontrados continuam sendo motivo de preocupação.
“A gente encontra pneu, a gente encontra muita coisa, pneu, vaso sanitário, sofá. Olha, se eu for te listar a quantidade de lixo que a gente encontra nas praias durante a Caminhada Ecológica, é uma lista muito grande”, relata.
Segundo ela, mesmo depois de quase três décadas de ações de conscientização, o descarte inadequado continua presente.
“Em relação à questão do lixo, durante todos esses anos a gente não viu muita mudança, não. A coleta de resíduos continua, sim, acho que continua até mais”, afirma.
Maria José relata que a situação varia entre as praias. Nos locais onde existem barracas e presença permanente de trabalhadores e moradores, como Juá e Pajuçara, a organização percebe melhorias na limpeza. O problema aparece principalmente em áreas mais afastadas.
“Se você vai depois de um final de semana, depois de um feriado, você vai ver que os locais mais afastados das barracas são os que estão mais sujos”, diz.
Outro comportamento identificado pela organização é o de frequentadores que juntam os próprios resíduos, mas deixam as sacolas penduradas nas árvores. Sem coleta nesses pontos, o lixo pode posteriormente chegar ao Tapajós.
“Vem a enchente, as árvores vão para dentro da água, aquele lixo retorna para o rio. Então, a gente tem essa preocupação”, explica.
Além do lixo, os organizadores acompanham as transformações físicas ocorridas ao longo do percurso. Maria José cita a praia do Maracanã, tradicional ponto de saída da caminhada, e a instalação de estruturas portuárias na região como algumas das principais mudanças percebidas.
“A gente tem essa preocupação de portos sendo criados aqui na frente da cidade e acabando com as nossas praias”, afirma.
Segundo a coordenadora, na edição passada os participantes tiveram dificuldades para seguir pelo percurso nas proximidades do Porto Calha Norte devido à presença de balsas, o que obrigou o grupo a fazer um desvio.
A participação das comunidades do Eixo Forte também acompanha a caminhada desde suas primeiras edições. Além de receberem os participantes durante o percurso, moradores integram a própria coordenação da atividade.
“As comunidades têm um significado muito importante para nós em relação à Caminhada Ecológica, porque as comunidades do Eixo Forte dão um suporte muito grande e fazem parte da caminhada na coordenação do evento”, destaca Maria José.
O debate levantado pela caminhada ocorre em meio a problemas relacionados ao descarte e à coleta de resíduos já relatados por moradores de Alter do Chão.
Em reportagem publicada pelo Tapajós de Fato, moradores e empreendedores denunciaram acúmulo de lixo em ruas, terrenos, praças e praias da vila, situação que se intensifica principalmente depois de finais de semana, quando o fluxo de visitantes aumenta.
Um empreendedor ouvido na ocasião relatou: “Quando passa o final de semana, a gente vai na segunda-feira, tá lotado, lixo pendurado nas árvores, lixo pendurado em todo o canto, debaixo das árvores… a gente recebe reclamações todo dia aqui no balcão por conta de lixo nas ruas, de lixo nas praias”.
Outra moradora destacou a necessidade de educação ambiental. “A dificuldade maior, na verdade, é educar a nossa própria população, é conscientizar de que dependemos desse turismo”, afirmou.
Na época, o Tapajós de Fato também encontrou terrenos utilizados como pontos irregulares de descarte e resíduos espalhados às margens da rodovia Everaldo Martins. A reportagem mostrou ainda iniciativas comunitárias, como o projeto Lixo Zero, da Associação Amigos do Lago Verde (AMA Lago Verde), voltado à educação ambiental e à redução de pontos de descarte irregular.
Maria José explica que a caminhada não realiza a limpeza em Alter do Chão durante o percurso porque a vila é o ponto final da mobilização. Neste ano, o grupo tentou organizar uma ação específica no local antes do evento, mas a proximidade com o Sairé dificultou a mobilização das comunidades. Uma nova atividade deverá ser articulada após a caminhada.
Leia mais: Alter do Chão: uma das praias mais bonitas do Brasil enfrenta problemas com lixo
Além dos resíduos, as altas temperaturas preocupam os organizadores neste ano. A coordenação afirma que haverá estrutura de apoio durante o trajeto e que as próprias condições encontradas durante o percurso fazem parte da experiência de educação ambiental proposta pelo evento.
“As pessoas que vão, elas mesmas fazem uma avaliação de como está a questão do meio ambiente, como está a questão do clima em relação às nossas praias, em relação aos nossos rios”, afirma Maria José.
A programação se estende por dois dias. No domingo (18), os participantes terão uma reflexão ambiental compartilhada às 7h, seguida de café da manhã. A caminhada será retomada às 8h, com chegada prevista à praia de Alter do Chão às 11h30.
As inscrições custam R$ 80 e dão direito a camisa, cuia regional de lembrança, pulseira de identificação, água mineral, café da manhã e transporte de apoio.
Para a organização, mais do que retirar resíduos uma vez por ano, a permanência da caminhada ao longo de décadas busca provocar uma mudança na relação das pessoas com as praias.
“É muito importante mostrar para as pessoas que vão na caminhada como é importante a gente preservar as nossas praias, como é importante a gente preservar o meio ambiente”, conclui Maria José.