
Chapéus de palha cobertos por fitas coloridas, pernas de pau, instrumentos de percussão, uma grande barca carregada pelas ruas e milhares de brincantes transformam a cidade. É o Arrastão do Círio, realizado pelo Arraial do Pavulagem, logo após a chegada da Romaria Fluvial.
À noite, enquanto a imagem de Nossa Senhora de Nazaré ainda está passando pela Avenida Presidente Vargas, outra multidão começa a se formar na Praça da República. São corpos pintados, artistas, drag queens, pessoas LGBTQIAPN+, famílias, curiosos e devotos. Depois da passagem da Trasladação, a Festa da Chiquita começa a ocupar o centro de Belém com música, performances e celebração.
Durante muito tempo, manifestações como essas foram colocadas sob uma mesma categoria: o “lado profano do Círio”.
Mas, profano para quem?
O Círio de Nazaré é uma celebração católica. Mas aquilo que Belém construiu ao redor dele ultrapassou há muito tempo os limites de uma procissão religiosa. Ao longo do tempo, diferentes manifestações culturais passaram a integrar o calendário da festa, expressando outras formas de ocupar a cidade e de se relacionar com o período de celebração.
O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconhece o Círio como um conjunto de celebrações e eventos. Ao descrever esse universo, o Iphan inclui não apenas as romarias oficiais, como a Trasladação e o Círio Fluvial, mas também manifestações como o Auto do Círio, o Arrastão do Pavulagem e a Festa da Chiquita. A existência desses eventos ajuda a contar outra parte da história da festa.
Uma história construída também por quem nem sempre encontrou o mesmo lugar de protagonismo dentro das grandes procissões ou das instituições religiosas: pessoas LGBTQIAPN+, artistas populares, mestres e mestras da cultura, brincantes e expressões culturais vindas das periferias, comunidades tradicionais, quilombolas e povos indígenas.
Isso não significa que o Arrastão e a Festa da Chiquita tenham a mesma origem ou compartilhem os mesmos sentidos . Suas histórias e sentidos são diferentes. Mas ambas ajudam a questionar a ideia de que existe apenas uma maneira legítima de viver o Círio.
Em 2026, a Festa da Chiquita chega aos 50 anos. Realizada na Praça da República após a passagem da Trasladação, a manifestação nasceu na década de 1970 e se tornou um dos mais antigos espaços de celebração LGBTQIAPN+ do Brasil. Ao longo dessas cinco décadas, transformou a noite anterior a grande procissão do Círio em espaço de encontro, arte, política, irreverência e reivindicação de direitos.
Neste ano, a comemoração acontece no dia 10 de outubro, com o tema “Festa da Chiquita: 50 anos Patrimônio Cultural da Humanidade”. Mas a Chiquita não acontece em qualquer noite. Nem em qualquer lugar da cidade. Ela espera a passagem de Nossa Senhora de Nazaré para começar.
Essa relação torna mais difícil estabelecer uma fronteira rígida entre a festa e o Círio.
Em 2025, ao ser entrevistado pelo Portal Viggo, Elói Iglesias, que coordena a Chiquita desde 1990, contestou justamente o termo usado tantas vezes para descrevê-la.
“Isso não é uma festa profana. A gente não quer acabar com a religiosidade de ninguém.”
Elói descreve a trajetória da Festa da Chiquita a partir de três palavras: “resistência, luta, visibilidade”. E acrescenta algo fundamental para compreender por que aquela multidão permanece na Praça da República ano após ano: pessoas LGBTQIAPN+ também têm direito à fé.
A relação entre pessoas LGBTQIAPN+ e instituições religiosas no Brasil carrega uma longa história de tensão, rejeição e exclusão. É justamente por isso que a existência de uma manifestação LGBTQIAPN+ dentro do tempo e do espaço do Círio ganha um sentido que ultrapassa o entretenimento. A Chiquita reivindica o direito de essas pessoas também estabelecerem suas próprias relações com Nazaré.
Não é preciso deixar de ser gay, lésbica, bissexual, travesti ou trans para sentir devoção. Tampouco é necessário viver essa fé exatamente como determina uma instituição religiosa.
Durantes cinco décadas, a Festa da Chiquita transformou a Praça da República em um espaço no qual identidade, expressão artística, política e religiosidade se encontram. A permanência da manifestação também evidencia a importância de garantir que pessoas historicamente discriminadas e marginalizadas tenham o direito de ocupar espaços públicos e participar de celebrações, inclusive religiosas, que marcam a vida cultural da cidade.
Em material publicado pelo Iphan, Elói Iglesias define a festa como uma tradição de resistência LGBTQIAPN+ no coração da Amazônia. Para ele, a continuidade da Chiquita diante da violência e da opressão é, por si só, uma forma de resistência. Sobre os 50 anos da festa, ele voltou ao tema:
“É tempo de celebrar cinco décadas de história, resistência, cultura e tradição.”
Para Elói, essa celebração também precisa assegurar que as pessoas sejam respeitadas dentro de um espaço de fé e cultura.
Cinco décadas depois de seu surgimento, a permanência da Chiquita diz alguma coisa sobre o próprio Círio: pessoas que durante muito tempo foram vistas apenas como estando à margem também construíram a história da festa.
Também no sábado de Círio, pela manhã, o Arrastão do Círio chega à sua 24ª edição. A expectativa divulgada para 2026 é reunir mais de 25 mil pessoas pelas ruas do centro de Belém.
A cortejo começa na Escadinha do Cais do Porto. Os brincantes aguardam a chegada da imagem peregrina, trazida pela Romaria Fluvial, fazem sua homenagem a Nazaré e seguem pelas ruas em uma celebração marcada pela música, pela dança e pelos símbolos da cultura paraense.
O que aparece nas ruas é uma Amazônia que nem sempre cabe nas formas tradicionais de uma procissão católica. Tem carimbó, samba de cacete, banguê. Tem pernas de pau, instrumentos de percussão, brinquedos populares, fitas coloridas, dança e uma barca carregada pelos brincantes.
Para 2026, o Arraial preparou ainda uma apresentação que mistura música e dança com referências ancestrais antes da chegada da imagem.
É uma forma própria de homenagear e dizer a mesma coisa que tantos outros devotos dizem durante aqueles dias: Nazinha, estamos aqui.
O Arrastão também ajuda a trazer para o centro da cidade referências culturais construídas longe dos espaços mais formais da festa, como comunidades e territórios.
A pesquisa que sustenta o cortejo do Arraial do Pavulagem passa por comunidades, municípios, quilombos, mestres e mestras da cultura popular paraense. Em 2026, por exemplo, o projeto Rios do Mundo apresentou registros produzidos em lugares como os quilombos do Mocambo e Engenho Novo, em Ourém, Guajará-Miri, no Acará, e comunidades da Ilha das Onças.
Para Júnior Soares, co-fundador do Arraial do Pavulagem, o cortejo também representa a construção de um território de acolhimento.
“Esse lugar onde você vai ser respeitado, esse lugar onde você tem boa cultura, boa música.”
A fala ajuda a compreender o Arrastão para além do espetáculo visual. Há ali uma disputa sobre quais culturas podem ocupar o centro da cidade e ser reconhecidas como parte de sua história.
Ritmos, danças, brinquedos e saberes populares que muitas vezes foram tratados como folclore, cultura periférica ou manifestação menor atravessam algumas das ruas mais simbólicas de Belém e passam a integrar a experiência coletiva do Círio.
Em 2025, isso ficou ainda mais evidente. O Arrastão começou com uma Roda Ancestral, reunindo cantos e danças indígenas e quilombolas antes da chegada da imagem de Nazaré.
A barca carregada pelos brincantes, os chapéus de palha, as fitas e os instrumentos não disputam espaço com a santa. São parte da linguagem escolhida por aquelas pessoas para saudá-la.
A palavra “profano”continua sendo utilizada para separar as manifestações diretamente organizadas pela Igreja daquelas que cresceram ao redor do Círio. Mas essa divisão nem sempre corresponde à maneira como os participantes vivenciam a festa.
A antropóloga Mariana Ximenes, pesquisadora da UFPA, questionou essa divisão ao estudar justamente as relações entre devoção, carnavalização e práticas não oficiais da festa.
Segundo a pesquisadora, , durante aquilo que chama de “Tempo do Círio”, manifestações que não são oficiais deixam de pertencer ao cotidiano comum e passam a integrar aquele período extraordinário de celebração coletiva. “Nesse sentido, ela também é sagrada.”
A pesquisadora argumenta ainda que a separação rígida entre manifestações sagradas e profanas nasce de uma classificação institucional e não necessariamente da experiência dos próprios devotos.
Essa leitura permite olhar de outra maneira para uma drag queen esperando a passagem de Nazaré. Para o brincante que toca seu instrumento diante da imagem. Para quem dança carimbó depois da chegada da santa. Ou para uma pessoa LGBTQIAPN+ que encontrou na Praça da República um lugar para celebrar sua identidade e sua devoção ao mesmo tempo.
O reconhecimento institucional dessas manifestações ajuda a entender sua importância cultural. O Arrastão foi reconhecido em 2013 como bem cultural associado ao Círio. A Festa da Chiquita também integra a documentação patrimonial do Círio e, desde 2020, é reconhecida por lei como Patrimônio Cultural Imaterial do Pará. Ou seja, manifestações durante muito tempo apresentadas como periféricas à celebração passaram a ser reconhecidas como parte daquilo que ajuda a explicar o próprio Círio.
Isso não apaga conflitos. Também não transforma automaticamente uma festa católica em uma celebração sem fronteiras religiosas ou políticas. Mas mostra que patrimônio não é construído apenas por quem organiza oficialmente uma festa. Também é construído por quem insiste em permanecer nela.
Neste outubro, as cenas voltam se repetir. Na manhã do sábado, a barca do Arrastão seguirá pelo centro após a Romaria Fluvial. À noite, depois que Nazaré passar pela Praça da República, as Chiquitas tomarão novamente aquele espaço.
No domingo, milhões acompanharão a grande procissão em homenagem à padroeira. Talvez seja justamente essa sobreposição que ajude a explicar por que o Círio é tão difícil de caber apenas na definição de festa religiosa.
Há quem reze. Há quem dance. Há quem toque. Há quem monte pernas de pau. Há quem vá de salto alto. Há quem espere a santa passar para começar uma festa que existe há meio século.
São experiências diferentes de ocupar Belém e de construir uma relação com o Círio. Chamaram algumas delas de profanas. Elas permaneceram. Hoje, também são patrimônio cultural da celebração.