Fogo, fumaça e resistência: povo Borari enfrenta mais um ciclo de destruição na APA Alter do Chão

Após o combate que mobilizou brigadistas na última semana, uma nova frente de fogo de grandes proporções atingiu a região na noite desta quinta-feira (5). Brigadistas voltaram a campo, em mais um episódio que alerta para a gravidade da temporada das queimadas e os impactos sobre a comunidade

06/11/2026 às 14h24
Por: Isabelle Maciel
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Foto: Victor Oliveira/Tapajós de Fato
Foto: Victor Oliveira/Tapajós de Fato

Ainda enfrentando as consequências do incêndio que atingiu, em 30 de outubro, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Alter do Chão, Território Indígena Borari, a comunidade foi surpreendida por uma nova frente de fogo de grandes proporções na noite desta quinta-feira (5). 

O novo incêndio ocorre poucos dias depois de uma intensa mobilização de moradores, brigadistas e apoiadores de Santarém. Entre o último fim de semana e a segunda-feira (2), as equipes de combate conseguiram controlar o avanço das chamas na APA. Com a nova ocorrência, a mobilização precisou ser retomada e a comunidade voltou a enfrentar os impactos da destruição. Quem vive no território sabe que o fim do incêndio visível não significa o fim da crise. Mesmo quando o fogo baixa, o ar permanece carregado de fuligem, no solo ficam marcas da devastação e o sentimento de tristeza fica para os moradores do oeste do Pará.

A mobilização anterior começou no fim da tarde de sábado (31) e avançou pela madrugada. A fumaça, visível a partir do Lago Verde, alertou moradores e lideranças de que a floresta voltava a queimar próximo à área do Camarão e na estrada do Pindobal. A resposta comunitária foi imediata, unindo o povo Borari, guardiões do território, brigadistas e associações locais em uma rede de apoio e contenção do fogo. E na segunda-feira (2), o fogo já estava totalmente controlado.

Para quem reside e protege a APA, enfrentar o fogo durante a estiagem deixou de ser um episódio isolado para se tornar um ciclo desgastante. A comunitária Jocilene Borari descreve o peso emocional e o medo constante vividos pela comunidade no período de seca.

“Pra nós é muito difícil, porque nós sempre cuidamos da natureza, dos nossos rios, dos nossos lagos, e quando chega nesse período, a nossa maior preocupação é justamente com essas queimadas. (...) Estamos muito preocupados desde o início mesmo do verão. A gente fica imaginando principalmente os animais que estão precisando sair da área por causa desse fogo. Não só nós, como seres humanos, mas os nossos animais e as nossas áreas que pra nós são sagradas, principalmente agora perto do Camarão, que tem uma história e nós estamos aos poucos perdendo”.

A recorrência dos incêndios em um intervalo de poucos dias evidencia os desafios para proteger a floresta e reduzir os danos às áreas de importância ambiental, cultural e espiritual para o povo Borari. Também reforça a necessidade de mobilização e apoio constante às brigadas e às comunidades que atuam na proteção do território.

Assista a reportagem do Tapajós de Fato sobre o trabalho das brigadas e do povo Borari na contenção do fogo

Especulação imobiliária no território

Embora a fumaça encubra as causas imediatas dos incêndios, as lideranças locais apontam que os focos recorrentes na APA não são acidentais, mas parte de uma dinâmica de pressão imobiliária e avanço irregular sobre terras comunitárias. A queima do lixo, a limpeza descontrolada de lotes para venda e a intenção criminosa são apontadas como motivos centrais do problema.

O cacique Osmar Vieira afirma que os incêndios recentes expõem feridas profundas no território Borari e exige fiscalização e punição dos responsáveis:

“Alter do Chão, o nosso território, está sendo queimado e não é de agora. O fogo passa, é um muro que se levanta, é uma placa de venda; a especulação imobiliária vai invadindo. O fogo não tem CPF, mas quem toca o fogo tem. O que nós pedimos é fiscalização e que essas pessoas realmente sejam punidas. Nós não estamos falando apenas de uma vila ou de um balneário, estamos falando do território do povo Borari, com sítios arqueológicos e lugares sagrados atingidos”. 

O cacique destaca ainda os impactos diretos que permanecem na rotina das famílias após o combate às chamas, como os problemas respiratórios e gripes causadas pela fuligem sobre o território.

Estacas de marcação de terrenos, associados à especulação imobiliária foram encontradas na área atingida pelo incêndio / Foto: Victor Vieira - Tapajós de Fato

A linha de frente e o desafio do solo que continua queimando

O controle das chamas do primeiro incêndio exigiu esforço conjunto. A Brigada do Baixo Tapajós e a Brigada de Alter atuaram na linha de frente ao lado do Corpo de Bombeiros, com apoio do ICMBio, do Governo Federal, dos Guardiões do Território Borari, das Suraras do Tapajós, da Prefeitura de Santarém e da organização AMA Lago Verde.

Apesar da frente de fogo principal ter sido contida, o trabalho no terreno não se encerrou com o fim das chamas visíveis. O brigadista Elder Stéfanno explica as dificuldades operacionais enfrentadas pelas equipes e alerta para a diferença entre um incêndio controlado e um incêndio extinto:

“O nosso maior desafio foi o deslocamento e o acesso. Estamos num período de seca muito grande, as estradas são ruins, com muito areião, além do horário noturno. Mas é preciso haver o entendimento de que o controle de um incêndio é diferente da extinção. No momento, ele está controlado, não oferece risco imediato a residências ou áreas sensíveis, mas ainda há focos de incêndio subterrâneo, de turfa, que exigem cavar trincheiras para conter as chamas que caminham por baixo do solo”, disse Elder Stéfanno, que também é diretor-presidente da Brigada de Alter.

O que fica 

O curto intervalo de tempo entre os incêndios de grandes proporções no território Borari mantém moradores e equipes de combate em estado de alerta, precisando reorganizar constantemente os esforços para proteger a floresta, os animais, os lugares sagrados e os modos de vida da comunidade. 

A recorrência das queimadas reforça a urgência de apoio às equipes, de ações públicas permanentes de prevenção e monitoramento, de fiscalização sobre as pressões da especulação imobiliária e queimadas criminosas que atingem o território. 

A comunidade de Alter de Chão amanhece dia após dia sob o ar pesado da fumaça e a necessidade de monitoramento constante e enquanto não forem realizadas ações efetivas de prevenção,  fiscalização responsabilização, o controle das chamas será apenas uma pausa temporária em um incêndio que insiste em não apagar.

Área devastada pelo fogo criminoso / Foto: Victor Vieira - Tapajós de Fato
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