Os riscos da fumaça não são invisíveis: especialistas orientam sobre a qualidade do ar em Santarém

Com índices que oscilaram entre níveis preocupantes e condições melhores nos últimos dias, a população deve acompanhar o monitoramento e redobrar os cuidados com a exposição à fumaça, sobretudo nos grupos mais vulneráveis

21/10/2026 às 13h48 Atualizada em 21/10/2026 às 16h05
Por: Victor Ribeiro Fonte: Tapajós de Fato
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Foto: Vivi Borari
Foto: Vivi Borari

Na madrugada e manhã de segunda-feira (19), moradores de Santarém compartilharam nas redes sociais fotos e vídeos da fumaça que encobria áreas urbanas e rurais do município. No mesmo dia, a plataforma internacional IQAir registrou índices de qualidade do ar acima de 200 em determinados horários, classificado como muito prejudicial à saúde. Já os  dados da estação de monitoramento instalada no campus da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), por meio do sistema AURASSURE, apontou Índice de Qualidade do Ar (IQA) de 150, classificado como “Muito Ruim” pela plataforma.

Na manhã de terça-feira (20), a situação já aparecia como moderada na consulta ao IQAir. As leituras correspondem a horários e sistemas de monitoramento diferentes e mostram como as condições podem mudar ao longo do dia, mas a melhora na qualidade do ar, mesmo sendo percebida de um dia para o outro, não significa que a fumaça deixou de representar um risco à saúde.

O meteorologista Alex Santos, doutor em meteorologia aplicada e membro do Comitê Municipal de Gestão de Riscos de Queimadas e Mudanças Climáticas em Santarém, alerta que a melhora observada não deve ser interpretada como o fim do problema.

“Houve uma melhora na qualidade do ar. Mas a situação deve oscilar e agravar até o final do mês. Sem previsão de chuva abrangente ainda. E variações diárias de focos de queimadas nos municípios vizinhos, especialmente Alenquer, Prainha e Monte Alegre”, destacou.

Foto: Rosa Rodigues - Ascom/UFOPA

Santarém já enfrentou semanas de fumaça em 2024

A situação atual remete a episódios de fumaça registrados em 2024, quando Santarém passou dois meses sob uma densa fumaça provocada por incêndios na região, afetando a rotina da população. Embora as condições meteorológicas e número de focos de incêndios possam variar de uma no para outro, o histórico reforça a importância do monitoramento continuo da qualidade do ar e da adoção de medidas preventivas para proteger à saúde da população

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O que a fumaça provoca no organismo

A fumaça das queimadas contém gases e partículas suspensas no ar. Entre elas estão as partículas finas conhecidas como PM2.5, que têm diâmetro de até 2,5 micrômetros — pequenas o suficiente para alcançar regiões profundas dos pulmões. A exposição pode causar irritação nos olhos, no nariz e na garganta. Entre os muitos sintomas, dificuldade para respirar é uma das principais. Também pode agravar quadros de asma, bronquite e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), além de aumentar o risco de complicações cardiovasculares.

O problema não depende apenas da fumaça visível ou do cheiro forte. A concentração de partículas pode variar conforme as condições atmosféricas, e a exposição se torna mais preocupante quando os níveis de poluição permanecem elevados por períodos prolongados.

O meteorologista Gabriel Brito Costa, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e coordenador do Laboratório de Agrometeorologia com Modelagem da Bioeconomia e Diagnóstico Ambiental (LAMBDA), explica que as partículas finas presentes na fumaça podem penetrar profundamente nos pulmões e provocar efeitos que vão desde irritações e tosse até o agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares.

“A exposição à poluição atmosférica pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse, falta de ar e dores de cabeça, além de agravar doenças respiratórias e aumentar os riscos de complicações cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com problemas respiratórios ou cardíacos estão entre os grupos mais vulneráveis”, alerta o meteorologista.

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Segundo o meteorologista, crianças, idosos, gestantes e pessoas com problemas respiratórios ou cardíacos estão entre os grupos mais vulneráveis, mas isso não significa que pessoas saudáveis estejam livres dos efeitos da poluição, especialmente quando a exposição é intensa ou prolongada. Diante dessas condições, o especialista faz as seguintes recomendações:

Escolas e universidades: reduzir ou transferir para ambientes internos atividades esportivas intensas, aulas práticas e eventos prolongados ao ar livre.

Trabalhadores externos: reduzir esforços físicos intensos, programar pausas e manter hidratação adequada, considerando também a temperatura muito elevada.

Pessoas com asma, DPOC ou doenças cardíacas: limitar a exposição, manter medicamentos prescritos disponíveis e observar agravamento dos sintomas.

Residências: evitar fumaça de queimadas, queima de resíduos e outras fontes de poluição interna. Fechar janelas quando houver fumaça externa e priorizar ventilação filtrada, quando disponível.

Atendimento médico: procurar avaliação diante de falta de ar persistente, chiado estranho ao respirar ou agravamento de sintomas respiratórios. Dor no peito ou dificuldade respiratória intensa exigem atendimento urgente.

Monitoramento e acesso à informação 

Além do acompanhamento feito por plataformas de consulta pública, a Ufopa e a Prefeitura de Santarém discutem formas de ampliar o acesso da população aos dados locais. Em reunião realizada na terça-feira (20), a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e pesquisadores do Laboratório de Agrometeorologia com Modelagem da Bioeconomia e Diagnóstico Ambiental (LAMBDA), da Ufopa, trataram da criação de uma parceria para divulgar boletins periódicos sobre a qualidade do ar no município.

A proposta é que a Prefeitura compartilhe informações coletadas e analisadas pela equipe da universidade, para ajudar os moradores a acompanhar as condições atmosféricas e adotar medidas preventivas nos períodos de maior poluição.

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